Valentes de Santos

Santos sempre teve muito valente. Da Ponta da Praia ao Marapé, sempre teve gente que arrepiava. Principalmente no golfo, zona do cais do porto. Ali sempre teve gente de briga nas mãos e nas armas. Adegas, Maneco Lalau, Frederico Cabeleira, Ilhéu Peixeiro, Antoninho Navalhada, Cabo Verde, Grego, Onça, Seu Miranda... Toda essa gente teve nome.
Porém ( e sempre tem um porém), quem virou lenda foi o Nego Orlando. Enorme, forte, o crioulo não fazia careta pra cego e vivia fazendo e acontecendo. Tem casos de assombrar por conta do Nego Orlando. Presepadas que até Deus duvida acontecerem; muita gente jura que viu essas façanhas.
Uma delas se deu num campo de várzea lá no Macuco. Que campo? Floresta, Paulistano, Sorocabana, Guarani, Flor do Norte, Afonso Pena... sei lá. Naquele tempo (tempo bom!) havia um campo em cada pedaço. Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é o que sempre escutei nos bochichos das curriolas, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos até a beira das praias.
Estavam dois timões de respeito jogando uma partida muito dura, a valer taça. O jogo estava zero a zero. Um dos times era do Nego Orlando, naturalmente um time que não fazia graça pra ninguém e só costumava se apresentar disposto a garantir resultado no tapa, se não desse na bola. Era assim mesmo, que eu sei que era. O time do Nego Orlando não era o único nessa base, haviam muitos do mesmo naipe.
Nesse dia, segundo se conta pelas quebradas, o jogo estava equilibrado. Iam levando na boa, quando um burro chucrão ( um burro mesmo, não é força de expressão, não ) entrou no campo e parou numa das áreas. Tremenda confusão, todos tentando tirar o animal; era paulada, pontapé, puxada de rabo, tudo. Mas, qual o quê? O burrão chucro não arredava do lugar. Aí alguém apelou pro Nego Orlando.
-Tiro o burro do campo, mas com uma condição -o crioulo não era mole. Foi logo decretando: -Se eu tirar o burro, meu time bate um pênalti; se marcar gol, a taça é nossa.
A curriola riu muito. Depois, todo mundo viu que não ia ter jeito; acabaram topando.
O Nego Orlando se aproximou do animal. Respirou fundo e deu um tremendo soco no pescoço do burro. Uma pancada só, um golpe seco. O bicho nem gemeu. Caiu morto. Então, com cara de quem não estava brincando, ordenou:
-Trato é trato. É pênalti pra nós.
Mesmo sem jeito, o time adversário não tinha como chiar. O craque escalado pelo Nego Orlando pegou a bola, botou na marca de cal e deu um bico. 1x0. Com esse resultado, acabou o jogo: vitória indiscutível do time do Nego Orlando. Foi um festão. Encheram a taça de cachaça e beberam tudo com alegria.

Plínio Marcos

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