SUGESTÃO PRA UNIÃO DO SAMBA

mas é preciso unir...

Volto hoje a falar da União das Escolas de Samba de São Paulo, a nova entidade que foi fundada pra ajudar o samba de nossa terra. A ela já estão filiadas a Mocidade Alegre, Cabeções da Vila Prudente, Rosas de Ouro da Vila Brasilandia, Vai-Vai do Bexiga, Acadêmicos do Tatuapé, Peruchão, Flor da Vila Dalila, Folha Azul dos Marujos, Foliões da Vila Nova, Acadêmicos do Ipiranga, e o Paulistano da Glória. Essas escolas juntas são uma força, sem duvida nenhuma representam nossa arte popular. Porém ( e sempre tem um porém ), é pálido de espanto que não registro nessa lista o nome da gloriosa Escola de Samba Camisa Verde e Branco da Barra Funda, nem a do Império do Cambuci, nem do Lavapés, nem dos Príncipes Negros, nem do Morro da Casa Verde, nem dos Unidos da Vila Maria, nem do Peruchinho, nem dos Garotos da Chácara Santo Antonio, nem do Nenê da Vila Matilde e de outras. Isso me dá tristeza. Essas escolas de samba que não estão na segunda lista também representam o que existe de mais legitimo no samba de São Paulo. O que vem deixar claro que o samba paulistano está dividido. O que só é bom pros inimigos do samba e da arte popular brasileira.
Já falei e repito: homens de valor provado no meio de mil e uma batalhas, como Renatão Correa de Castro, Dalmo Ferreira, João de Ângelo, Covas Junior, Aristides Barbosa, Cirão Correa de Castro, Helena Junior, Ferreira Neto, quando resolvem pegar o pião na unha não é brincadeirinha. Muito menos pra faturar dinheiro e prestigio. Eles estão, tenho certeza, no lance, por amor à nossa musica, à nossa arte popular. Assim, como do outro lado, na Associação, estão homens do mesmo naipe. Flávio César, Isaias, o Comandante e tantos outros. Que também querem (e é só o que querem) ajudar a preservar nossa musica e nossa arte popular. Então por que o quás-quás-quás? Por que as quizilas? Por que os bochichos? Por que a peleja entre gente que devia estar do mesmo lado? Por que irmão de fé quer comer irmão de fé, se o inimigo comum, o verdadeiro inimigo do samba está aí forte e dando rijo e se beneficiando da confusão que os baluartes do samba, de São Paulo deixaram alastrar entre si?
Calma, gente boa das duas bandas. Vamos esfriar as cucas que estão piradas. Vamos abrir o papo. Vamos sentar em volta da mesa redonda. Vamos, se for o caso lavar roupa suja. Vamos, se necessário, curar as mágoas no esquisito, na lei das quebradas do mundaréu. Mas, vamos acertar os ponteiros. Porque o samba precisa de todos. Se juntos somos poucos, divididos somo nada.

Esforço, sacrifício, lágrimas e sangue.

Mestre Inocêncio Mulata, do Camisa Verde e Branco da Barra Funda, Mestre Nenê da Vila Matilde, Mestre Carlão do Peruchão, Mestre Pé Rachado, sempre da alvinegra do Bexiga, Senhora Dona Eunice do Lavapés, Mestre Sinval do Império do Cambuci, baluartes do samba Juarez da Cruz, da Mocidade, Mala do Tatuapé, Ângelo do Vai-Vai, Zezinho do Morro da Casa Verde, Dito Caipira da Vila Maria, Basílio da Rosas de Ouro da Brasilandia -- sintam o aroma da perpétua. Os senhores, que com esforço, sacrifício, lágrimas e sangue garantiram o samba paulistano vivo e livre nas ruas, no tempo em que a policia descia o chanfralho sem dó pra acabar os pagodes, os senhores que comeram o capim amargo pela raiz, os senhores que carregaram o fardo mais pesado durante a quadra mais cavernosa, os senhores sabem das coisas. Então, vamos unir. Vamos conversar. A moçada que está chegando é boa. Vem com tudo. Se o ambiente serenar eles fazem e acontecem pelo samba. Mas, é preciso unir. E os senhores podem promover a união do samba. Vamos lá juntar todas estas novas pedras noventa e fazer a terra tremer ao som do sonoro samba, musica do povão das quebradas do mundaréu.

Plínio Marcos
(03.09.1973)

Webmaster: Bethynha

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