UMA HISTÓRIA DE AMOR

   O negócio do Zé Boto era samba. Ele era vidrado no assunto e muito bem chegado. Botava banca na cuíca, no pandeiro, no tamborim, no cavaquinho, no violão. Também dizia no pé e era partideiro de muito respeito no partido-alto. Por essas e outras, era muito considerado. Em qualquer gafieira ou roda de batuqueiro em que pintasse, ele fazia e acontecia. Seu ambiente era qualquer lugar. Se juntava com a curriola e era aquela zonzeira. Levantava a poeira sem fazer cerimônia. Nunca saia de um perereco antes do sol raiar.
   Daí, já viu: no dia seguinte, não havia saúde para encarar o batente. E era aquele esquinapo. Com a vida custando os olhos da cara como anda, sua parceira pros ventos ruins que tomavam pela proa, a nega Dagmar, tinha que fazer das tripas coração. Lavando roupa pra madame e topando tudo o que aparecesse, ela garantia a grana mixuruca da feira semanal.
   Claro que a Dagmar se invocava com a folga do Zé Boto. Toda vez que ele chegava em casa, a mulher botava a boca no trombone. Mas dava em nada. Ele estrilava -"Sou um artista, tu não se manca?"- e, sem mais nenhuma pala, ia dormir. A Dagmar é que ficava na pior. Atucanada, esquentava a cachola à toa e ia pro seu trampo toda picada de raiva.
   A Dagmar passava o tempo todo dando duro e tramando o esculacho que iria dar no Zé Boto quando, à tardinha, voltasse pra casa. Mas, qual o quê... Quando ela regressava, encontrava o sambista tirando música no violão. Ao vê-la, o vagau parava e metia uma conversa toda deschavada em cima dela. Diante de tanto dengo, a Dagmar se rendia. Escutava com atenção e esperança as façanhas que o Zé Boto contava. Nessas horas, o malandro lembrava o samba que tinha feito pra ela:
   "Dagmar, minha gama preta/ Eu juro que sou todo teu". Tu lembra, Nega? Pois é. Ontem à noite, me bateu uma gringa de repente, uma vontade pega de tar contigo naquela hora. E eu, pra me aliviar, puxei em dó de peito o teu samba. Foi de entortar o patuá. Todo mundo se ligou.

   Quando acabei de dizer, um pinta branquelo que estava na escuta me perguntou se eu já tinha gravado esse samba. Aí eu contei que estava numa sinuca de bico e tal e coisa. Sabe o que ele falou? Falou que ia dar um jeito de meter o samba na bolacha. Tu vê, Dagmar? Numa dessas, eu aconteço. Daí, nos amarra o burro na sombra e eu vou te dar o tratamento que tu merece.
   No fim da história, a Dagmar ficava ruim dentro da roupa. Mil mumunhas lhe tiravam o sossego. Ela botava fé no talento do Zé Boto. Mas não acreditava muito em si mesma; por isso se machucava de medos. Um deles ela sempre escancarava:
   -Quando tu se aplumar, tu me passa pra trás. Eu sei que é assim. Todo artista dá essas mancadas.
   Naturalmente, o Zé Boto jurava pela luz que o iluminava que com ele não tinha chaveco, que ele era ponta-firme, que reconhecia a força que a Dagmar lhe dava. Confortava a mulher, lhe dava carinho. Apanhava uma graninha e se pinoteava. Sumia nas quebradas atrás do samba. Nunca gravava, mas não tomava conhecimento. Quando a Dagmar perguntava, se abria:
   -O pilantroso do branquelo queria parceria pra adiantar seu lado. Saí fora. Eu não vou dar moleza pra atravessador nenhum. Ainda mais do samba que eu fiz pra ti, Dagmar. Isso é sujeira e eu não entro nessa. Fiz teu samba com o coração. Ele é só meu e teu. Não tem chibu. Não posso gravar sozinho, dane-se! Mas neste samba não entra nome de ninguém.
   A Dagmar botava uma porção de argumentos na balança. Explicava que o feijão subia de preço, que o pão, o leite, a roupa do corpo, o aluguel do barraco e tantas coisas estavam cada vez mais difíceis de serem pagas. Mas o Zé Boto não entrava nessa catimba. Se agarrava nas dicas que Mestre Zagaia dá na sua Tabuada das Candongas e jogava pra cima da Dagmar:
   -Se agüenta, Nega. Nada como um dia atrás do outro.
   Um dia, a pobre Dagmar cansou de esperar. Descobriu mancha de batom num lenço do Zé Boto e se embandeirou de vez. Chiou às pamparras, subiu nas paredes. O Zé Boto se desculpou, pediu, implorou, até chorou. A Dagmar não relaxou a bronca; pegou seus trapinhos e foi embora sem deixar endereço. O Zé Boto ficou aterrado; vasculhou o planeta na captura da mulher, mas só descobriu que ela tinha arranjado emprego na casa de uma grã-fina, onde dormia. Por desgosto, ele abandonou o barracão onde viveu feliz e foi encostar seu corpo em outro mocó.
   Se batendo nos caminhos esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus, o Zé Boto encontrou um atalho que o levou a uma gravadora. Naturalmente, quem envereda por atalho tem que se borrar de algum jeito. O Zé Boto aceitou o jogo: fez sociedade cavernosa com um moço falante e tinhoso que abriu as portas pro sambista em troca de parceria.
   E, pra não parecer que não contribuía com nada, o moço fez pequenas modificações nas letras do Zé Boto. Inclusive no samba da Dagmar... O moço trocou o nome pelo de uma menina que ele andava paquerando, a Dilma. O Zé Boto se trancou em copas; já não tinha compromisso com a Dagmar e deixou andar.
   Não deu outra: uma vez, passando a ferro na casa do patrão e ouvindo rádio, ela se tocou num samba que não lhe era estranho. "Dilma, minha gama preta? Eu juro que sou todo teu", ouviu a Dagmar. A mulher se encabreirou. Se entralhou. Não pôde mais consigo mesma. Transbordando de ciúme, pegou o revólver que o patrão tinha e bateu perna atrás do Zé Boto.
   Quando a Dagmar encontrou o Zé Boto, não regateou, nem nada. Meteu três balas no peito do sambista. Depois, caiu em prantos. Por fim, meteu um arrebite na própria orelha.

Plínio Marcos

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