UMA FESTA PRA ZEZINHA

Sei lá quem, há muitos anos, me levou a uma festa de poetas. Por essa luz que me ilumina, não podia imaginar que uma festa de poetas pudesse juntar tantos poetas! Gente muito bem vestida, todos dizendo poemas. Pra mim, diziam pouco. Até anunciarem uma moça muito respeitada. Era a Zezinha - a Maria José Aranha de Rezende, me disseram. Ao anunciá-la, o apresentador se referiu a ela como "a encarnação da poesia de Santos; terra de poetas; sobrinha de Vicente de Carvalho, o poeta do mar". Muitos aplausos. Eu estava ali, meio pasmo com tudo aquilo. A tal Zezinha foi à frente e mandou ver. Foi maravilhoso, ela empolgou mesmo as pessoas. Disse um belo poema:

"Rosas, rosas de amor"

"Ao contrário dos jardins
Que têm rosas em profusão
Na vida são mais espinhos
Que ferem nossa mão

Não amargures a vida
Lembrando de coisas penosas
A roseira tem espinhos
Mas só colhemos as rosas

Colhe a rosa que te coube
Perfumada e colorida
E esquecerás os espinhos
Que te feriram na vida

Não abras muito a janela
Pois o vento pode entrar
E a tua rosa tão bela
Poderá se desfolhar

Cultiva por isso a rosa
Mesmo entre espinhos nascida
Porque espinhos são muitos
E poucas rosas na vida."

Eu não achei a festa nem feia nem bonita. Achei a dona Zezinha um encanto de poesia. Ela tinha poesia nela mesmo, isso eu senti. Não sabia formular. Me perguntava o que era aquilo, o que era aquela poesia tão diferente das outras que disseram naquela noite. Ao dizer aquela poesia, aquela mulher meio tímida me puxou pra poesia, isso é o que eu percebi na hora.
Depois, bem mais tarde, a poesia chegou perto de mim de novo quando minha irmã Márcia resolveu tomar aulas de declamação com dona Mirta Guarani Rosato, uma mulher muito bonita e generosa que também escrevia poesia e era amiga da minha mãe. Nem eu nem minha irmã encontramos o livro do poeta do mar. Não tivemos acesso, na época, aos versos de Vicente de Carvalho sobre o mar de Santos: "Mar, belo mar selvagem".
Eu estava ansioso por ler o poeta desde aquela festa em que a dona Zezinha declamou, quando citaram o Vicente de Carvalho como o bamba dos poetas santistas. Tão bamba que fizeram uma estátua para homenagear o figurão e a colocaram no jardim da praia -que, a bem da verdade, é o jardim de praia mais bonito que há no mundo.
Botaram a estátua de frente pra rua. Deu enguiço. Um gaiato boquejou:
-Nosso poeta do mar tinha que estar virado pro mar, pro mar que ele amava tanto.
E os ilustres da cidade viraram a estátua pro mar. Mas alguém estrilou:
-Vicente de Carvalho amava Santos, não pode ficar de costas para a cidade.
Armaram a lambança. Vira estátua pra lá, vira pra cá, vira que vira e torna a virar.
Mas deixa isso pra lá. O que quero contar e o que pesa na balança é que agora, em setembro, é festa da nossa Zezinha. Seria bem-vinda uma grande comemoração, para que todos os poetas e cantores pudessem homenagear essa Zezinha, nossa Zezinha. Seria lindo. Quem sabe? O Teatro Municipal está ai pra isso mesmo! Olha ai, secretário de Cultura de Santos...

Plínio Marcos

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