
Esta não é a melhor hora para uma homenagem que aqui se pretende
prestar a Oswaldo Justo. Ainda há pouco, tentando a palavra, esta se
esvaiu, transformando-se em pranto. Assim, preferimos antes continuar a reverenciar-lhe
a memória no mais silencioso dos adjetivos, já que o silêncio
sempre foi "a plenitude da palavra, da mesma forma que a palavra é
a plenitude dos sentidos, jamais dos sentimentos". Se a palavra é
mero "meio termo entre a nudez dos sentidos e o silêncio final
da alma humana", pouco poderemos fazer com ela nesta oportunidade, para
transmitir, sobretudo, a multiplicidade de alguém que transitou entre
nós multiplicando a própria imagem.
Desfaz-se de novo a palavra em nossas mãos quando se pretende erguer
um único monumento que transmita a imagem totalizante de um pai, de
um mestre ou de um companheiro. Mas como seria fácil a cada um de nós
-até com abundância de palavras para fazê-lo- se quiséssemos
agora enumerar-lhe a quantidade de títulos, de obras, de benemerências
e de honrarias. Mas nesse particular cairíamos na algidez dos currículos,
ou estaríamos prestes a erguer uma imagem estática, idêntica
às que estão expressas na pedra, no mármore, no bronze
e no granito, a desafiar o tempo, é certo, mas nunca se mostrando reveladora
daquilo que nem a pedra e nem a palavra podem alcançar: o universo
que está além das ponderabilidades, o mundo das virtualidades
potenciais, do verbo interior, das paixões contidas, do amor imanente,
do calor humano que é a própria chama que acalenta a vida. Parte
daí a nossa luta dramática pela expressão, que na verdade
é a eterna procura de toda a intuição criadora, que tanto
atormenta o artista que verbaliza a palavra, quando angustia o que cinzela
a pedra ou funde os metais, ambos espiritualizados na ânsia de fixar
o essencial fugidio dos seres, das coisas, do mundo.
Todos nós, estamos certos, gostaríamos de revelar esse mundo
que somente o silêncio pode alcançar, por que é só
no silêncio que se transpõem os obstáculos da visão
humana, para que se aporte a descortinios e transcendências quase religiosas.
Somente por esse caminho poder-se-ia revelar não a aparência
transitória dos perfis, na sua exterioridade comum, mas a realidade
íntima do modelo fiel, o que jamais seria possível com a precariedade
da palavra, por mais sonora, adjetiva, precisa ou rebuscada.
Se a palavra é o símbolo dos sentidos exatos, desfaz-se novamente,
pelo menos em nossas mãos, por ser demasiadamente frágil, sem
nenhum poder para transmitir sentimentos. Estes nossos sentimentos que desdenham
dos sentidos. E sentido é exatidão, ao passo que o sentimento
é difuso, e geralmente confuso. O primeiro é geométrico,
tem limites e forma. O segundo é disforme, fluídrico e onírico.
Senão vejamos: lágrima, amizade, amor, gratidão, saudade,
adeus. São palavras. Todas elas exatas em cada um de nós, no
seu frio estado de dicionário. Mas nunca aflorando em nossa boca, na
forma de um beijo, ou latejando, como lateja agora, o coração.
Não flui nunca, quente, de nossos olhos, como o pranto que derramamos
no ato do adeus, mudo, feito silêncio, como a saudade em nós
ferindo. Diríamos até, como um dardo na raiz da alma.
Onde está a palavra para este sentimento de ausência, ou de presença,
para que possamos nela permanecer como refúgio e segurança?
Que tragam a palavra para que possamos chorar juntos o vazio destes lugares
tantas vezes ocupados antes por Justo, não pela eminência do
mestre, do companheiro, do conselheiro, do homem político, mas pelo
igual a nós, com defeitos e virtudes familiares, mas tão familiares
como se fossem nossos. É apenas o cidadão Oswaldo Justo, cuja
família veio de terras estranhas para a humildade de nossa cidade,
e depois para a escalada de suas conquistas na sua importância dentro
de um dos maiores cenários políticos desta Nação.
Agora, é o simples cidadão igual a nós, absolutamente
igual a nós, despojado de toda a sua multiplicidade. Ei-lo aqui e agora,
com sua característica nuclear, muito embora estremecida pelas linhas
de força de sua grande personalidade: o amigo. Duro e generoso. Agressivo
e bom. Irreverente e caridoso com amigos e inimigos, mas sempre leal a ambos,
no momento em que alguém pensava atingi-lo ou agredi-lo com a dureza
da verdade. Assim se comportava Justo, batido pelas contradições
da vida, amargurado pelas injustiças e magoado pelas traições,
mostrando às vezes o que não era para defender e proteger aquilo
que sempre foi: o mineral incorruptível que o fazia íntegro,
de caráter maior como os mantos sagrados.
Seus ímpetos de ouriço eram apenas o revestimento do tímido,
de natureza romântica, lírica, poética, que despontava
nos momentos de descontração entre amigos. Mas era exatamente
esse feixe de correntes entrelaçadas que lhe dava força. Por
isso mantinha a firmeza dos rochedos, e transmitia sem nenhum esforço,
a todos, aquela atmosfera de segurança que gerava e manifestava otimismo
e confiança. Jamais resvalou pela subserviência diante dos poderosos,
como nunca se mostrou arrogante com os humildes. Era o centro. O equilíbrio.
E sempre que derivava para fora destes limites, voltava a eles, com a honestidade
que nunca se envergonha na hora das desculpas.
Um homem, um amigo. Talvez agora possamos, com a palavra tão frágil,
erguer-lhe o monumento, e talvez transmitir um pouco do mundo interior daquele
que foi mais que um homem, um político, um pai, um filho, um companheiro,
porque foi amigo. Esta é a palavra. A única, talvez. E todos
aqueles que com ele compartilharam, melhor até do que eu, sabem o sentido
exato desta palavra. O sentido que transcende aos seus limites estreitos,
acanhados, físicos, para se projetar e transformar em sentimentos,
nesta coisa difusa, informe, confusa e nebulosa que se alimenta do silêncio,
para florescer no poema, na sinfonia, no amor e na paixão. Homenageemos
pois, juntos, ao amigo. Aquele que, no plano da vida total, praticou seu último
ato: o silêncio.
Carlos Pinto
Jornalista
(14/04/03)
Webmaster: Bethynha

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