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AS TRÊS CARTAS

O folclore político nacional é
rico em manifestações e expressões, criadas por nossos representantes
nas várias casas legislativas e, também, por ocupantes de cargos executivos.
Ao ex-Presidente Tancredo Neves, são creditadas algumas dessas famosas
criações, entre as quais seleciono duas: "Política é como nuvem...." e,
"...telefone só deve ser utilizado para marcar encontro e, de preferência,
em lugar errado...".
O ex-Governador de São Paulo, Adhemar de Barros, também recebe o crédito
de várias expressões. Uma delas é a mais citada. Toda vez que algum correligionário
lhe apresentava um amigo, Adhemar dispensava ao apresentado toda a atenção,
enquanto fazia sua análise política do cidadão. Se não lhe agradava o
andamento da conversa, virava-se para o correligionário e afirmava: "Este
cidadão não é do ramo..."
O ex-Prefeito Oswaldo Justo, usa muito uma criação sua, que por certo
encontra éco em alguns ocupantes do executivo nacional de hoje:
"Coloque um cidadão de esquerda na cadeira de prefeito, que quando ele
levantar já será de direita..."
E assim se sucedem várias expressões e frases neste rico folclore político
nacional. Mas tem uma que por certo vai fazer carreira por muitos e muitos
séculos, caso a mentalidade política nacional não sofra mudanças. Desconheço
o autor desta obra prima, que no fundo revela uma grande verdade. Trata-se
das três cartas.
Conta-se que certa vez um executivo estava deixando seu cargo no governo
e, ao passá-lo ao seu sucessor, entregou-lhe três cartas. Disse a ele
que não podia ajudá-lo em nada, nem oferecer qualquer sugestão. Apenas
aquelas três cartas, com a seguinte orientação: quando você tiver a primeira
crise administrativa e não encontrar uma solução que resolva o impasse,
abra a primeira carta e, assim, sucessivamente.
O tempo passou e o novo executivo estava em lua de mel com o cargo, até
que aconteceu o primeiro problema. Após exaustivas tentativas de debelar
a crise sem qualquer sucesso, lembrou-se das três cartas. Imediatamente
abriu a gaveta e pegou a primeira. Abrindo o envelope encontrou dentro
dele o seguinte conselho: "...ponha a culpa no seu antecessor". E não
deu outra coisa.
Deitou falação contra ele, que seus problemas eram oriundos da má gestão
anterior e que estava moralizando a casa, entre outras críticas e acusações.
A coisa acalmou e a lua de mel voltou. Passados mais alguns meses, nova
turbulência ameaçava seu cargo. Como não encontrava solução para se sustentar,
lembrou-se da segunda carta. Imediatamente abriu o segundo envelope e
lá encontrou a solução deixada pelo antecessor: "...mude o organograma
da empresa".
Não teve dúvidas. Reuniu a assessoria e determinou as mudanças que entendia
necessárias no organograma da empresa, para solucionar o impasse em que
se encontrava. Isto posto, mais alguns meses de lua de mel. Mas o tempo
não perdoa a falta de criatividade e a chamada falta de coerência política,
para não usar uma expressão mais clara. Novo temporal se abate sobre o
cidadão e ele, sem perda de tempo, procura rapidamente a solução na terceira
carta. Abre o envelope como quem toma um analgésico e puxa o último e
decisivo conselho do antecessor: " ...faça três cartas iguais e entregue
o cargo......."
by: Carlos Pinto
Jornalista
(01/02/02)
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