
Ainda preso à emoção de ter sido um dos coordenadores da exposição "Plínio
Marcos - Um Grito de Liberdade" e, tê-la reforçado ao assistir a nova montagem
de "Abajur Lilás", verifico que a obra de Plínio Marcos está sendo objeto de
novas investidas criadoras, por parte de alguns encenadores e produtores paulistas.
É como se num passe de mágica, vários integrantes da classe teatral entendessem
que o momento é por demais propicio, a uma revisão da temática abordada pelo
grande dramaturgo santista, recentemente falecido.
O próprio Plínio, em suas palestras e entrevistas, sempre afirmou que sua obra
permaneceria atual, enquanto as coisas no país não sofressem alterações sociais
de profundidade. De acordo com o andar da carruagem no cenário político nacional,
a obra de Plínio vai permanecer atual por dezenas de anos. Um país que assiste
perplexo os debates entre membros do Congresso Nacional, onde se adjetivam de
"velha prostituta pregando castidade" ou, "prefiro ser prostituta a ser ladrão
como Vossa Excelência", por certo levará realmente dezenas de anos para efetuar
qualquer modificação no atual sistema vigente.
E o mais engraçado, é que a ambientalização de algumas obras de Plínio Marcos
ocorrem em prostíbulos e bordéis da faixa portuária santista. Os temas focados
em "Navalha na Carne" e "Abajur Lilás", onde prostitutas são exploradas por
um gigolô, muito embora escritas a mais de trinta anos, parecem que foram escritas
ontem, se compararmos sua temática aos pronunciamentos que hoje ocorrem no Senado
Federal. Há um que de cumplicidade na linguagem utilizada.
Seria por demais ingênuo, acreditar que Plínio sofreu durante vários anos a
perseguição da censura ditatorial em função dos ditos palavrões utilizados em
sua obra. Ainda hoje, embora de uma forma mais sutil, observamos a ação dessa
mesma censura. Ingênuo também, é aquele que por incompetência ou alienação,
deixa de fazer a leitura correta do texto e dos personagens de Plínio.
Uma análise sem muita profundidade dos personagens "Vado" e "Giro", nos mostram
a face perversa do opressor. Do cidadão que sobrevive ou leva uma boa vida,
explorando o trabalho de outros. Sem entrar nos aspectos da mais valia, "Vado"
e "Giro" são dignos representantes da classe opressora, que através do capital
explora o trabalho dos outros. "Neuza Sueli" e "Dilma", acuadas pela necessidade
de sobreviver e oprimidas pela violência dos gigolôs, caem na descrença, na
desilusão, no chamado fato consumado e, tal qual a classe operária do país,
ficam entregues a um sistema capitalista selvagem que as exploram e as joga
na lata do lixo social como qualquer material descartável ou inservivel.
De uma certa forma, entendo como louvável esta revisão da obra de Plínio Marcos.
A partir de "Barrela", encenada ano passado e que deu ao encenador Sergio Ferrara,
o prêmio de direção da Associação Paulista de Críticos de Artes, as montagens
de "Dois Perdidos Numa Noite Suja", do diretor Tanah Correa; "O Homem do Caminho",
dirigida por Sergio Mamberti; "A Mancha Roxa", com direção de Roberto Lage e,
"Abajur Lilás", também com direção de Sergio Ferrara, por certo nos trarão nova
oportunidade de analisar e estudar a temática desse dramaturgo que, em vida,
sofreu toda a sorte de perseguições que se possam impor, a um livre pensador
e autor teatral.
Devem juntar-se a estas encenações, segundo sei, uma nova montagem de "Quando
as Máquinas Param", que em função do grave desemprego que hoje observamos no
país, servirá para demonstrar o quanto a temática de Plínio é atualíssima. "Balada
de um palhaço", também com direção de Tanah Correa e, "Homens de Papel", que
está em estudos para ser montada em Santos, onde o diretor Zellus se propõe
a trabalhar com mendigos, catadores de papel e outros excluídos, participarão
desta revisão, no que se refere a São Paulo.
Produtores e encenadores do Rio de Janeiro, Brasília e Bahia, estudam a montagem
de outras obras de Plínio Marcos, entre as quais, "Navalha na Carne". Seus herdeiros
tem recebido várias propostas que chegam de Portugal, Inglaterra, França, Itália
e outros países, num atestado eloqüente de que a selvageria do capitalismo,
travestido na globalização da economia, está fazendo vítimas em todo o planeta.
Sempre entendi que essa globalização começaria a ter problemas, quando tentasse
investir sobre a identidade cultural das várias nações. Na Europa de hoje são
inúmeros os protestos populares contra essa sistemática econômica que fragiliza
ainda mais os países pobres, enquanto enche os cofres das nações mais ricas.
Com isso, percebe-se com nitidez, que o teatro brasileiro volta seus olhos mais
uma vez para dentro da realidade nacional. Volta a ocupar o lugar naquilo que
se conceitua como vanguarda, na discussão dos nossos problemas sócio-econômicos
que não são poucos. Não tem o porque de apresentar soluções. Deve sim, denunciar
todas essas mazelas que se cometem contra vários segmentos sociais, que são
excluídos de todo e qualquer processo de participação na vida nacional.
São essas coisas que justificam a existência do teatro como espetáculo, onde
o palco deve ser transformado em contínuo e permanente estímulo visual, auditivo
e conscientizador, colocando o espectador diante do verdadeiro e bom teatro.
Um teatro onde o homem, a dignidade humana, a preservação de princípios humanistas
se elevem, e combatam as deformações provocadas por sistemas político-sociais
não condizentes com as reais necessidades da nossa sociedade.
by: CARLOS PINTO
15/07/2001
Jornalista e Presidente do Instituto Cultural de
Artes Cênicas do Estado de São Paulo
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