TEATRO VIVO. MUITO VIVO.

O Sérgio Ferrara e o Marco Antonio Braz são dois jovens artistas de muito talento. Ganharam o direito de ocupação do Teatro Eugênio Kusnet, em São Paulo, por um ano. Apresentaram um projeto à Funarte, dona do espaço que um dia abrigou o Arena, para uma abordagem ampla de dois autores brasileiros: Nelson Rodrigues e eu. Em julho encenam "Perdoa-me" , uma peça do Nelson, e fazem leituras de textos meus; em setembro estréiam "Barrela" e organizam leituras do Nelson. Ano que vem, nova dose. Legal, né? Pois é.
Mas o que eu quero contar e o que pesa na balança é que, para abrir essa longa temporada de um ano, os dois jovens diretores me convidaram para apresentar um espetáculo onde eu contasse casos meus e do Nelson. Lembrei de alguns anos atrás, quando eu estava internado no Incor (depois de uma cirurgia nas pernas e antes de outra no coração; minhas pernas só não foram amputadas porque a Verinha, minha companheira, interveio com tudo; botou o Jabaquara em campo, virou a mesa, convocou bambas no assunto e tal e coisa e lousas). Numa tarde apareceram três belas meninas da ECA (a escola de artistas da USP) com um estranho convite.
Queremos fazer uma homenagem pro senhor. Pro senhor, pro Vianinha, pro Paulo Pontes e pro Nelson Rodrigues.
Os três já tinham morrido. "Será que eu morri e ninguém me avisou?", pensei. Uma das meninas concluiu:
- O senhor Vai?
- Se eles forem, eu vou - respondi.
Já viu: não fui. Mas dessa vez, lá no Eugênio Kusnet, resolvi ir. Chamei meus amigos de fé, os paus-pra-toda-obra: Verinha Artaxo, minha parceira pro que der e vier; Léo Lama, meu nenê - capitão; Kiko Armeiro, meu gatão azul; Tiago Tigrão, companheirão que enfrenta todas as paradas pra me ajudar; Carlão do Carnaval, andarilho que me acompanha há uns cinqüenta anos. Aninha Festa, minha nenê linda, não pode ir, mas foi a Martinha Tramonte, mãe do meu neto mais velho, o Guilherme.
- Vai parecer cena de "A Noviça Rebelde" - disse a Vera, gozadora como ela só. A família toda no palco!
Pois coube a ela selecionar e distribuir os textos. Para os três meninos, escolheu "Dois times sem jogo", um texto meu recordista de publicação que nunca tinha sido lido em público. "Todo mundo gosta, é muito engraçado", apostou a Vera. Rimos muito lembrando de uma história envolvendo esse conto.
Uma vez, meu amigo Tarso de Castro pediu um texto pra revista "Careta" e mandei esse. Entusiasmado, ele comprou no ato e foi mostrar pro chefão, Domingo Alzugaray, diretor da Editora Três. Ele botou as butucas no conto e berrou com o Tarso:
- Essa merda eu já comprei oito vezes!
O Tarso ficou puto da vida comigo, mas o que posso fazer se vivo duro?
A leitura seria inédita... Os dois diretores de times, os personagens da história, ficaram para Leo e Kiko; Tiago daria conta das rubricas. O garoto gosta dos bastidores, o negócio dele é manejar som e luz. De inicio, achou que ia gaguejar no palco. Uns dias antes do show, perguntei se ele iria ou não. "Você não está contando comigo? Então vou, pô." Esse é o Tiago. Foi e fez bonito. Leu com coragem de ator tarimbado. O Léo e o Kiko estraçalharam. O conto foi um sucesso. Nessa noite especial, o Carlão do Carnaval contou façanhas das nossas andanças com um humor incrível e abafou! A Martinha deu seu recado com o talento que ela já comprovou muitas vezes no palco. E a Verinha regendo tudo...
Eu contei histórias, que é o que mais gosto de fazer. Lembrei várias passagens do genial Nelson Rodrigues. Como no dia em que ele me ligou pedindo pra fazer uma pergunta específica pra ele num programa que a Manchete estava armando:
- Pergunta o que eu acho do meu filho Nelsinho - o Nelson chorava.
- Deixa comigo - parecia estranho, mas entendi. Herói do povo brasileiro, o Nelsinho lutava pela liberdade e foi preso. Desesperado, o Nelson foi, com todo o seu prestigio de grande escritor, interceder pelo filho junto ao Médici. O ditador tinha suas mumunhas: convidou o Nelson pra voar com ele pra São Paulo para assistirem juntos ao jogo entre o tricolor do Morumbi e o Grêmio de Porto Alegre; conversariam durante a viagem. O Nelson tinha pavor de avião, pavor mesmo. Tinha pavor de tudo, aliás; não gostava de sair de sua base. Uma vez, o Ginaldo de Souza produziu uma peça do Nelson e teve que fazer das tripas coração pra ele ir assistir, porque era preciso atravessar a ponte Rio - Niterói... Mas, pra tirar o filho da cadeia, o paizão voou, e voou ao lado do Médici.
- Tiro seu filho, mas só ele. Os amigos dele, nem pensar. São subversivos, comunistas sanguinários.
Aqui, ó, que o digno do Nelsinho aceitou. Só sairia se os companheiros saíssem. Ficou. Mas há essa gente maldizente que faz fofoca... Caíram de pau em cima do Nelson. Injuriaram o genial dramaturgo de todos os jeitos. Eu sabia como ele sofria com o filho preso. Sabia também como ele se orgulhava do filho honrado e valente. E fiz a pergunta, para ele poder gritar pra todo mundo ouvir:
- Eu amo meu filho Nelsinho.
A platéia do Eugênio Kusnet se enterneceu com essa e outras histórias do Nelson Rodrigues que eu contei. Também ficou comovida com o Léo Lama, falando de Baudelaire, um maldito entre os malditos. Léo leu um trecho de uma fala terminal do incrível poeta: "E se vocês morrerem uma só vez as mil vezes que eu morri, talvez, quem sabe, percebam o quanto eu amo vocês". Isso está em "Baudelaire, o Pai do Rock" , uma obra - prima que o Léo escreveu.
Não estou dizendo isso porque, segundo o Léo, " falou de um maldito, falou de todos" e sou homenageado na peça. O cara é mesmo ótimo, é um gênio! Ah, estou dizendo isso porque é meu filho? Então, tá: vai lá no porão do Teatro Maria Della Costa conferir. O elenco é sensacional, todos novinhos, mas de muito talento: Marat Descartes, o protagonista, com certeza será apontado como um dos melhores atores de sua geração; Nana Pequini, cheia de garra, fibra e arte, vai dar muito o que falar; Gabriela Previdello é uma beleza de mulher, uma atriz com luz própria (só espero que a televisão não a leve para transformá-la em mais uma boneca sem nenhuma personalidade e com uma montanha de clichês). Quem apóia o Léo na empreitada é a turminha de sempre: Paula Micchi, Gabi Barros, Sandra Rosa, Giggio T. M., Edson Giusti. Grandes companheiros.
Houve muitas emoções nessa noite mágica. Assim que encerramos a função, o doutor Iberê Bandeira de Melo, meu amigo, advogado que atuou brilhantemente na liberação de " Abajur Lilás", pediu a palavra e levou a platéia às lágrimas ao dar seu testemunho sobre os tempos difíceis que vivemos na ditadura (embora ache graça de tudo, como bem mostrou o Carlão). No final, ainda me sobrou um duro golpe, pobre de mim! Acabou o espetáculo, meu neto Gui, filho do Léo, correu pra me abraçar:
- Vovô, quando eu crescer também quero ser um maldito, mas não quero ir preso toda hora...
Plínio Marcos

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