"NO TEATRO DAS IMORALIDADES"

o ministério...

    "Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas nem nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim."

(Hermann Hesse - in, Demian).

        O dramaturgo Plinio Marcos tem por hábito se colocar como um “repórter de um tempo mau”, o que na verdade condiz com a função do autor teatral, qual seja, a de transportar para sua obra o momento ou, os momentos do cotidiano de uma sociedade. Não deve varrer para baixo do tapete, as misérias praticadas por essa sociedade, mas sim, apresentá-las como de fato o são. O teatro em seu nascedouro na antiga Grécia, mais precisamente seus autores, terminaram por se transformar  nos precursores do jornalismo e da informação, e nessa forma deve se manter.
        Como tudo na vida se transforma, e para os que acham que determinada criação é um exemplo de coisa moderna, vamos encontrar no teatro medieval vários elementos do moderno teatro épico, tais como : atores que estão no palco mas não podem ser vistos; atores que aguardam sua vez de entrar em cena; o prólogo que explica à platéia o que ela vai assistir; diversos atores fazendo o mesmo personagem, sem falar nos cantos e danças e pequenas “farsas” que serviam para quebrar a tensão dramática sobre os espectadores. Outro elemento importante do teatro medieval era o “distanciamento” entre o ator e o personagem, que Brecht se encarregou de explorar aos últimos limites. Tal distanciamento na época medieval, no entanto, tinha outra conotação. O misticismo religioso não permitia que alguém pretendesse se passar por Cristo, ou pela Virgem Maria ou qualquer outro Santo. Os atores simplesmente declamavam o texto na forma de veículos desses personagens.
        A comédia também estava presente neste período e um dos grupos mais famosos eram os “Bazoches”, que apresentavam espetáculos cômicos onde a imoralidade estava a braços com o ridículo a que expunham os políticos e figuras da igreja. Era tanto o sucesso desse grupo que logo outros apareceram, cada qual se postando como mais original que o outro em suas vestes especiais, como era o caso dos “Bobos”, que usavam capuzes com orelhas de burro e vestimentas verde e amarelo.
        Todos esses grupos teatrais sustentavam que seus espetáculos tinham um escopo “moral”, daí, atribuir-se a eles, a criação ou introdução do chamado “teatro das moralidades”. Nesta forma teatral há sempre um castigo para quem faz o mal. E é exatamente neste período medieval que vamos encontrar um paralelo com o que ocorre neste país em plena passagem para o terceiro milênio.
        Estivessem atentos os nossos dramaturgos, e já teriam criado o “teatro das imoralidades”, tamanhas são as safadezas que se cometem diariamente contra a sociedade brasileira. Nem bem saímos de assuntos relacionados com a compra de votos para a implantação do processo da reeleição presidencial, e já mergulhamos na lama dos anões do orçamento. Passam-se alguns dias e explode o escândalo dos precatórios e, nem bem este assunto é meio solucionado, já estoura o caso do suplente que mandou matar a deputada para poder assumir a vaga dela no Congresso.
        De passagem, chegam as “farsas” da conta bancária nas Ilhas Cayman e os grampos nos telefones do BNDES. É preciso que se explique, aqui, que a palavra “farsa”, vem do latim “farta”, e significa, “recheio”. Os espetáculos acima estiveram e estão em cartaz nos teatros de Brasília. Aqui em São Paulo, o grande sucesso do “teatro das imoralidades” é sem sombra de dúvidas a chamada máfia dos fiscais da Prefeitura paulistana. Entendendo que os “atores” da paulicéia desvairada já estavam fazendo muita sombra, os brasilienses partiram para o contra ataque e brindaram a platéia brasileira com esse grande espetáculo imoral, representado pela venda de dólares do Banco Central, aos Bancos Marka e FonteCindam, em plena véspera de mutações em nossa política cambial.
        Resta lembrar aos nossos dramaturgos que pretendam criar novos textos trágicos ou cômicos sobre tais fatos, que no teatro medieval, mais própriamente no “teatro das moralidades”, havia sempre um castigo para aquele que fazia o mal. Em determinado texto, o filho dá ao pai velho e faminto só um pedaço de pão mofado, e vê sair de dentro dele um enorme sapo que o morde na face, ficando marcado até o dia em que solicita absolvição ao Papa e este a concede.
        Com tanta fome assolando milhares de brasileiros, e os estoques de alimentos do governo se deteriorando em armazéns sem a mínima condição de armazenar até a insensatez de nossos governantes, em breve teremos vários e enormes sapos, mordendo a face de tantos quantos trambiqueiros  que insistem com seu cinismo, em nos colocar as vestimentas utilizadas pela troupe dos “Bobos” da era medieval : orelhas de burro e roupas verde e amarelas.

(by: CARLOS PINTO)

o governo... o povo..

Publicado no Jornal A Tribuna, de Santos, em 26/04/99

Publicado no Jornal O Progresso, de Ituverava, em 24/04/99

Publicado no Jornal Primeira Página, de São Carlos, em 24/04/99

Publicado no Jornal O Repórter, de São Carlos, em 24/04/99

Publicado no Jornal Local, de Santos, em 08/05/99

Publicado no Jornal da Região de Catanduva, em  24/04/99

Publicado no Jornal Hora do Povo, de São Paulo, em 08/05/99

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