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Em julho de 1975 a Revista Realidade,
publicação da Editora Abril existente na época, editou matéria relacionada
com o teatro amador no Estado de São Paulo. Partindo de um universo de
235 grupos contatados, nos quais mais de sete mil participantes se dedicavam
à causa do teatro amador, Realidade prestou naquela oportunidade um enorme
serviço a este segmento cultural, que hoje, não representa um tênue arremedo
do que ocorreu nas décadas de 60 e 70.
Me permito reproduzir o "lead" de abertura da referida matéria: "Um sábado
à noite em São Paulo. No Teatro Maria Della Costa, a empresa de espetáculos
Difusão está apresentando "Equus", peça do americano Peter Shaffer. Numa
montagem que custou 300.000 cruzeiros, o ator Ewerton de Castro, no papel
de um adolescente neurótico, cavalga noite adentro animais endeusados,
sob as vistas atônitas de Paulo Autran, um psiquiatra descrente do seu
próprio ofício. Em trinta dias, mais de 10.000 pessoas viram a peça, recorde
na vida teatral paulista, a mais intensa do país. Nessa mesma noite, num
modesto salão da Associação Beneficiente Espírita Jesus, Misericórdia
e Luz, no bairro operário da Penha, três moças, num imaginário ritual
de bruxaria, colocam ratos e morcegos dentro de um caldeirão. Gargalhadas
histéricas e um som cavo de tambor acompanham as evoluções das feiticeiras
pelo gasto chão de madeira, com espaços marcados a giz. Elas estão ensaiando
"Macbeth", de Shakespeare. Pertencem ao Grupo Teatral Jambaí. Os próprios
atores montaram a peça e eles mesmos construirão seu próprio palco. E
ficarão felizes se forem vistos por mil pessoas durante toda a temporada,
a 5 cruzeiros o ingresso."
Que ligação vamos encontrar nas colocações acima ? Ewerton de Castro,
um dos mais renomados atores do nosso teatro, teve seu começo em um grupo
de teatro amador de São José do Rio Preto. Antonio Fagundes, outro dos
grandes atores do nosso tempo, teve como berço cênico o Grupo Teatral
Jambaí.
Para o Professor Oscar Fernandez, da Universidade de Iowa (EUA) e um dos
maiores especialistas mundiais em teatro amador, em uma de suas passagens
pelo Brasil no período que antes mencionei, deixou um comentário significativo
sobre a importância do movimento teatral amador de São Paulo como celeiro
de renovação dos quadros de praticantes das artes cênicas: " Em nenhum
outro lugar encontrei um número tão grande de movimentos de amadores como
aqui."
Anos após, já no final dos anos setenta, por iniciativa da Confederação
de Teatro Amador do Estado, através de convênio firmado entre a USP e
o Conselho Estadual de Cultura, um levantamento mais crítico foi efetuado
onde foram ouvidos mais de oito mil participantes do teatro amador paulista,
que militavam em mais de 300 grupos naquela oportunidade, cujos resultados
constatados nessa pesquisa demonstravam a pujança, o vigor e a seriedade
com que se conduziam esses amadores.
E hoje ? Qual o veículo de informação que a exemplo de Realidade, se interessa
em reproduzir o momento atual do amadorismo teatral paulista? Porque após
a redemocratização do país os órgãos governamentais da cultura paulista
foram aos poucos engavetando os dispositivos legais que patrocinavam esse
celeiro das artes cênicas ? Porque os amadores que seguiram dirigindo
esse movimento, através das Federações e da Confederação de Teatro Amador,
optaram pela coptação através de empregos nesses mesmos organismos oficiais
da cultura, "desistindo" da sua função de, como dirigentes, reivindicar
os direitos e as conquistas desse teatro amador ?
Ao longo das décadas acima referidas, a contribuição do teatro amador
paulista para a profissionalização no setor, contribuiu com grandes nomes
ainda hoje em atividades. Alem dos antes mencionados, podemos citar o
cenógrafo José Carlos Serroni e os atores José Roberto Arduim, Carlos
Gardim e a atriz Malú Pessin, oriundos de São José do Rio Preto. Os grupos
de Santos contribuíram através de Ney Latorraca, Neide Veneziano, Jonas
Melo, Jandira Martini, Carlos Alberto Soffredini, Tanah Correa, Alexandre
Borges, entre outros. De São Carlos, oriundo do Grupo Porão 7, veio Marcelo
Picchi e, Edson Celulare, teve seu começo no Gil Vicente, de Bauru. De
Sorocaba saíram Paulo Betti, Eliane Giardini e Afonso Gentil. Alcides
Nogueira Pinto, autor teatral e novelista da Globo, iniciou-se em um grupo
amador de Botucatu, revelado no V Festival Estadual de Teatro Amador realizado
em 1967 na cidade de Presidente Prudente. E Timochenco Whebi ? E Regina
Duarte, Mauro Rasi, Ulisses Cruz, Antonio Bivar, Plínio Marcos e tantos
outros que tornariam cansativa esta narrativa? Todos eles tiveram seus
primeiros passos na profissão, orientados em grupos amadores, por muitos
diretores que permanecem anônimos diante do público e da história.
É bem verdade que a Secretaria de Estado da Cultura, que no passado patrocinava
toda essa movimentação, sem instrumentalizar o movimento, hoje se omite
de qualquer atividade junto a este núcleo formador. Está mais voltada
para a realização de obras faraônicas e para o atendimento clientelista
de eleitores e cabos eleitorais que hoje ocupam cargos nesse organismo.
Perdeu suas finalidades como elemento gerador de novos profissionais,
novas concepções cênicas e novas idéias teatrais. Derrete-se no atendimento
a produções que atendem apenas os interesses de meia dúzia de apaniguados,
ao tempo em que relega a um estado de abandono, todo o interior e litoral
paulista, real e verdadeiro celeiro de profissionais do setor.
Só uma ampla modificação em sua estrutura e em seus conceitos, poderá
levar esse organismo oficial a cumprir com as finalidades para as quais
foi criado, criação essa, onde o teatro amador teve o maior peso em termos
reivindicatórios. Sempre foi marca do movimento teatral amador a geração
de posturas críticas. Os atuais governantes precisam aprender a trabalhar
com as divergências oriundas dessas posturas críticas, princípio
primário da dialética. É preciso que se perceba e se entenda, também,
que os grupos amadores não são apenas forjadores de novos talentos, mas,
são os formadores de novas platéias, e contribuem para a formação da cidadania,
elementos vitais para a formação do cidadão e a continuidade do teatro
como arte e como profissão.
(by: Carlos Pinto)
16/04/2001
Webmaster: Bethynha
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