Bate Papo Sobre o

Muita gente me pergunta por carta, por telefone, em encontros casuais na rua: " O tarô é mágico? Você lê por telefone? Você advinha o futuro?" Pode crer. O tarô é mágico. Porém (e sempre tem um porém), não é sobrenatural. Vê se me entende, porque mais que isso não vou explicar. Ler tarô por telefone, nem pensar: é pura picaretagem. Também não leio o futuro: o futuro a Deus pertence. E obedece à lei de causas e efeitos, de ação e reação.
O que eu leio? O tarô. Esse é o tarô: o meu tarô. Ele reflete o inconsciente do freguês nos arcanos e é isso o que eu leio. O tarô fala a linguagem que emerge da mente humana. As cartas apresentam figuras, desenhos, signos e sinais que significam símbolos quase sempre universais. Foi isso que atraiu tantos investigadores idôneos, como Ouspenski (discípulo de Gurdjiett), Papus, Eliras Levi e Jung, entre outros, para o tarô.
Em síntese, o tarô é um livro. Um sistema de símbolos. Vinte e duas lâminas -os arcanos maiores- que formam uma verdadeira chave dos mistérios. Colocados numa determinada ordem, os arcanos maiores podem conduzir a uma viagem altamente esclarecedora. Um profundo mergulho no inconsciente que leva ao autoconhecimento, à elevação espiritual.
Muita gente se surpreende com a capacidade do tarô de ajudar o homem moderno. O homem nunca esteve tão mal como agora. Está miserável. Infeliz. Pervertido. Envenenado na raiz. O Estado autoritário deforma, atrofia as tendências naturais do homem. O homem sob a tutela do paternalismo do Estado perde a condição de caminhar sozinho. Tem medo. Muito medo. Um terrível medo social. Medo de ficar desamparado. A minha tarefa com o tarô é justamente ajudar esse homem a se encontrar. Não a atingir uma meta. A viagem é linda quando não existe meta a ser atingida.
Tenho andado por aí dando palestras e cursos sobre o tarô. Meu objetivo é o de sempre: instigar. No caso, instigar a platéia a analisar as cartas e seus significados através de reações intuitivas que elas despertam e de símbolos que elas evocam. Depois, examinamos a relação entre as cartas; uma carta se relaciona com as outras. Isso tudo dá ao tarô a dimensão de um canal de captação do Todo. Alguns ouvintes captam logo, outros demoram mais. É assim também na leitura individual: o trabalho depende do nível de cada um.
Quando me abordam por carta, por telefone, na rua, nas palestras, nos cursos, as pessoas sempre têm curiosidade de saber quem inventou o tarô. Vou dar uma colher de chá geral neste espaço, elucidando a questão. Na medida do possível, pois ninguém sabe ao certo e não existe uma resposta simples e imediata para o surgimento do tarô. Tem baralho de mil e um jeitos, do ponto de vista gráfico. Há cartas de todos os tipos. Cada grupo dá uma versão para a origem do tarô. Por essas e outras, ninguém pode, em verdade, afirmar que o tarô vem daqui ou dali, desta ou daquela época.
Há quem atribua aos chineses da mais remota antigüidade a criação de um jogo de tabuinhas numeradas e pintadas com figuras de rios, flores, peixes, árvores, dragões, serpentes e outros animais. Quando esse jogo chegou à Europa, por ordem da Igreja as figuras foram apagadas e permaneceram apenas os números, que evoluíram para o moderno jogo do dominó. Mais ou menos na mesma época, essas tabuinhas apareceram na Índia apresentando figuras humanas.
Mas há quem garanta que as primeiras notícias sobre o tarô datam de quando os cruzados entraram em guerra com os mouros; os cruzados encontraram lâminas de adivinhar entre os mouros. No entanto, há quem credite o tarô ao povo judeu, pois existem lâminas antigas onde aparecem caracteres do alfabeto hebraico; de fato, existe uma interpretação cabalística do tarô toda baseada na árvore da vida. Mas não podemos esquecer que Moisés foi sacerdote no Egito... E aí entra Hermes Trismegisto, o deus Thot.
Conta-se que ele, prevendo o início de um ciclo histórico da decadência espiritual da humanidade, idealizou, de forma sintética para preservar o significado simbólico, o conteúdo essencial do conhecimento esotérico. O raciocínio era evidente: prevendo que o homem entraria numa fase de distração das preocupações espirituais, a diversão poderia ser o próprio meio de preservação -de transmissão- do verdadeiro conhecimento, do conhecimento ocultista. Segundo essa versão, o povo cigano teria sido ordenado pelo deus Thot -os próprios ciganos contam isso- para espalhar o tarô pelo mundo.
Quem sabe, lê o livro (o tarô). Ele é a chave para a Bíblia, para o Alcorão, para o Torah, para o Livro dos Vedas, para o Livro do Rei Salomão e para todos os livros sagrados. Quem não sabe, joga. E alguns tomam dinheiro dos crédulos com previsões fajutas. Pessoalmente, por carta, por telefone.....

Plínio Marcos

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