O Ultimo Tocador de Tambu

Nas quebradas do mundaréu, bem onde
o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, mexe e vira havia festa de
tambu. Tambu é uma dança de umbigada. Homens de um lado, mulheres do outro,
o cantador improvisa uns versos no meio da roda; canta primeiro pras mulheres,
depois para os homens, até todos poderem cantar juntos; então o cantador se
afasta e, batendo palmas no ritmo, homens e mulheres vão se aproximando até
darem a umbigada. Três instrumentos entram no tambu: pau-oco ou sete léguas,
um pau de sete metros com um couro esticado na ponta capaz de ecoar na mata
por sete léguas; quingenguê, uma espécie de atabaque pequeno; e chocalho.
O Almofadão, crioulo cheio de truques -gostava de se apresentar bem trajado,
com roupa branca, de um branco de anúncio de televisão, daí o apelido- era um
grande puxador de tambu. Mandava ver, dava um recado sentido. E todos o respeitavam.
Não havia batuqueiro que dispensasse as festas onde o Almofadão cantava e batia
tambu. Por essas e outras, o coroa reinava.
E seu filho, o Almofadinha, desde pequeno dava as fuças nesse pagode, dizendo
no pé como príncipe que era. Por ser pivete, abafava: O pai não descuidava,
levava o moleque num cortado. Antes de saírem, o velho Almofadão examinava o
filho de cima a baixo, pra ver se estava tudo como mandava o figurino. Quando
retornavam das festanças, conferia mais uma vez seu menino; se ele não estivesse
coberto de poeira, tal e qual um tatu, levava cascudo, pois era sinal de que
não tinha se espalhado como devia um bom batuqueiro.
Assim, o Almofadinha foi crescendo e ganhando nome no seu pedaço. O velho Almofadão
se sentia tranquilo pra morrer. Sabia que, quando fosse falar com Deus, o tambu
não iria pro beleléu. Seu filho amado estaria firme para manter o axé da família,
remando o barco mesmo contra a maré. E salvaria o tambu apesar da onda da música
estrangeira, que já naquele tempo era só o que se escutava nos veículos de comunicação.
Foi por essa fé que, no dia em que seu coração rateou, o velho Almofadão nem
se afobou. Deitou, fechou os olhos e, na proteção de seus orixás, se apagou.
Pro Almofadinha, perder o pai -antes de mais nada um companheirão de batuque-
foi um golpe de entortar o patuá. Ficou jururu. Mas deu descanso de alça pro
Almofadão com todas as honras de mestre batuqueiro. Fez o couro do cabrito gemer;
chorou no quingenguê até botarem terra em cima da carcaça do velho Almofadão.
E, diante da cova rasa que coube ao Almofadão, o Almofadinha jurou, pela luz
que o iluminava, que seria um tocador de tambu até seu último suspiro. Se tivesse
filhos, passaria a eles os macetes do negócio.
Porém (sempre tem um porém), logo a mãe do Almofadinha esticou as canelas, com
saudades do marido. Ao ficar sozinho, o Almofadinha, desacorçoado naquele lugar
onde tudo lembrava seus mortos queridos, juntou seus trapinhos, seu quingenguê
e mais uns badulaques e se arrancou. Sai sem rumo, à procura de um mocó pra
começar nova vida. Nessas andanças, o Almofadinha teve que bater perna à toa
pelos caminhos esquisitos do roçado do bom Deus. Pra se escorar, resolveu bater
seu quingenguê nos botequins, esperando que algum bobalhão, entusiasmado com
seu som, lhe adiantasse alguma graninha. Qual o quê...
Foi tocar e causar espanto: ninguém entendeu. As orelhas viciadas em ritmos
estrangeiros estranharam aquela batida. De inicio, pensaram que o Almofadinha
era africano; só quando abriu o bico, viram que era brasileiro. E aí gozaram
o desgraçado às baldas. Encabulado, o Almofadinha puxou uns versos pra provocar
as moças, versos de sucesso garantido no seu antigo pedaço: Campinas, Tietê,
Pederneiras/ Aqui em São Paulo não tem moça batuqueira. Coitado! Tomou a maior
vaia da paróquia e, depois da vaia, esculachos mil. Invocado com o passa-fora,
o Almofadinha meteu o galho dentro e se retirou. Foi matutar no seu canto.
Por acaso, escutou uma música tocando num rádio. Estrangeira, naturalmente.
Mas o Almofadinha não se mancou, era música e era isso o que importava. Dono
de um ouvido privilegiado, prestou atenção e morou no ritmo. Achou uma sopa.
Bateu no seu quingenguê e não teve chibu. Na sua bobeira, até achou legal. Continuou
tocando e não demorou pra se sentir à vontade: Demorou menos ainda pra aparecer
um freguês todo animado com a batida do Almofadinha, anunciando com banca de
entendido: "poxa, bicho! Tu é o máximo nessa tumbadora. Chega mais."
O Almofadinha se aproximou, entrou de sola com o som que pegou de orelhada.
Só recebeu elogio: "Bárbaro", "Supermoderno", "Demais", "O bicho curte legal",
"É bidu mesmo", animava a galera.
E, engabelado, o Almofadinha entrou de gaiato na pala da moçada. Esqueceu rápido
sua origem, seu velho pai, o Almofadão companheiro e amigo. Aprendeu as milongas
da nova curriola, os ritmos das rádios. Foi convidado para fazer parte de um
conjunto de garotões cabeludos. Aceitou. E passou a chiar coisas de lascar,
com a boca mole de mascar chicletes:
-Sem essa, bicho! Tambu já era.
Deve fazer o velho Almofadão se remexer na cova de tanto desgosto.
Plínio Marcos
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