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Acho que não é segredo pra ninguém que eu nasci
lá em Santos, mais precisamente, na rua Delfim Moreira e me criei na Baixada
vagando de ponta a ponta. Transei do Itapema ao Cubatão, da Praia Grande
à Pouca Farinha. Eu sou de Santos, sou da Baixada Santista. Sou quem sou
porque sou de lá. Porque meu axé é plantado junto da minha gente e porque
eu nunca esqueço os compromissos assumidos na esquina do meu velho quarteirão.
Mas, deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é
que estou no Teatro de Arte fazendo um sucessinho legal com o show " Humor
Grosso e Maldito das Quebradas do Mundaréu", e sucesso sempre assanha
os empresários, e os empresários sabem que a gente minha lá na Baixada
gosta de me ver. Aí, eles vêm com quás-quás-quás:
-Vamos dar um giro pelo interior. Vamos fazer e acontecer. Começaremos
em Santos, sua terra. Vai ser um estouro. Já faz uns quatro anos que tu
não vai lá com espetáculo.
E aí os empresários saem rumo a Santos, com todo o entusiasmo. Mas, não
demoram muito a reaparecerem murchos, jururus, tristes como pinto com
boba: -A Rádio Clube do Pelé tem um convênio com a Prefeitura e só empresta
a sala de espetáculo através do Departamento de Turismo lá da Prefeitura.
-E daí?
-E daí que uma senhora que tem lá no Departamento de Turismo disse pra
gente ir com qualquer espetáculo, menos, com o teu. Ela diz que ela pessoalmente
te admira e te respeita, mas que o prefeito e o filho do prefeito têm
bronca tua e não querem nem escutar falar em espetáculo teu lá em Santos.
Eu escuto essas falas fechado em copas. Claro que meu patuá fica entortado.
Sei do carinho com que as outras cidades recebem seus artistas. A Walderez,
minha mulher, quando vai a Ribeirão Preto, é um auê-auê da hora que chega
até quando sai. Tem trânsito livre nos clubes e em qualquer lugar. O Ari
Toledo, quando vai a Ourinhos, é feriado. O Jofre Soares, quando pia em
Palmeira dos Índios, é oba-obado sem parar. Juca de Oliveira, em São Roque,
recebe as honras de um príncipe. Mas, eu não. O povo de Santos sempre
prestigia meus espetáculos. Sempre me dá embalo. Isso não é de hoje. Desde
os tempos em que eu transava em circo, tive o apoio de minha gente. Porém
(e sempre tem um porém), as autoridades instaladas não gostam de mim.
E não me querem lá. Não facilitam nada. Aliás, muito pelo contrário. Quando
chego no meu pedaço, sou vigiado como se fosse um bandidão que só vai
lá pra aprontar. Mas, nem por isso eu amo menos minha terra e a minha
gente. Sou da Baixada, meu lorde. E sou quem sou por causa disso.
Dia desses eu me embandeiro.
O moço bom entrou no estúdio da Televisão Tupi com toda a euforia de sua
juventude. Sem rodeios, se apresentou pros artistas como organizador do
festival de cinema de Santos, uma promoção da Secretaria de Turismo da
Prefeitura. Foi logo convidando os cartazes das novelas pra irem prestigiar
o festival em novembro. Daí um colega meu falou pro moço:
-Convida o Plínio Marcos. Ele é santista.
E ele, que não sabia de nada, veio a mim. E deu a dica do assunto. Eu
podia deixar barato. Mas, estia não faz me gênero. Catuquei o pinta:
-Tu tá sabendo que a Secretaria de Turismo e tal e coisa, e coisa e lousa,
não quer eu lá?
O moço encabulou. Ficou pálido. Gaguejou que lhe deviam ter informado.
E sem a mínima cerimônia retirou o convite.
Não tem babado. Cada um do seu lado. Qualquer dia desses eu me embandeiro,
baixo lá no Macuco e vou curtir um sábado da pesada na X-9, ou na Brasil,
ou na Império do Samba e então transarei com o meu povo até o sol raiar.
Plínio Marcos
(08/10/1973)



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