Solidão a Mil

Todas as noites, quando fecho os olhos para dormir, Deus acende seus belos refletores de vertigem sobre mim, meu cérebro se acomoda no travesseirinho de flores, e vejo no verso das pálpebras a última imagem do glorioso dia de aventuras que acabei de viver.
E uma legenda em letras amarelas: "To Be Continued".
Começar a escrever um livro me parece mais difícil do que escrever o livro todo. Mas, depois que li o Retrato do Artista quando jovem e vi como Joyce começou, criei coragem.
Principalmente porque agora da vida só temos o resto.
Isso é fatal.
Olho no espelho profundo de mim e me questiono:
- Será que existe outra forma de ser feliz?
Fico pensando e acabo sonhando.
Mas sonho tão alto que o próprio barulho me acorda.
E todos os dias me desperto já perguntando se há no mundo coisa mais importante do que ser feliz. Vejo as estrelinhas coladas no teto do meu quarto e repito essa oração como fosse uma reza. Então me espreguiço gaiarsa, felino, gostoso, sorrindo. Mas só me levanto depois que gargalho. Enquanto não acho motivos para gargalhar - isso é sagrado - não os encontro também para levantar. E me acordo já fazendo ginástica com o cérebro, pois não quero teias de aranha nos meus neurônios. Sinapses, só as brilhantes me excitam, e eu as potencializo com lógica e amor. Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando, cheio portanto de luz - iluminado de novo e de mim.
Meus dias começam sempre assim.
Fico pensando de novo.
"Não sei o que dói mais: se o eventual castigo por um desejo forte realizado, satisfeito, puro, livre - ou se esse mesmo desejo contido, sufocado no peito, esmagando minha alma. Sinceramente, não sei o que dói mais".
Só sei que, menino ainda, sentado num cinema do interior, misturei Pitágoras e Pasolini para fazer meu primeiro juramento:
"Todas as minhas relações serão triangulares: eu, o meu amor - e a liberdade."
Em verdade, a relação é um tripé: se faltar um deles, desaba.
Mas já notou que entre você e a liberdade quase sempre existe um muro, construído de ciumentos e tijolos frios?
Salte logo essa barreira: a vida está lá do outro lado!
- É impossível ser feliz sem liberdade.
Um dia, aos quatorze anos, quando eu estava começando a entender a vida, escrevi minha melhor definição de amor.
"Amar é permitir sempre, amar é deixar que o outro vá - ou que fique, se assim o desejar. Amar é ter um respeito absoluto pela própria liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender sempre. E isso não significa apenas entendimento racional, vai além, muito além: Amar é reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de fazer suas escolhas."
(Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.)
Quem não concorda com tal idéia de amor não merece o meu.
Aliás, recuso terminantemente o eventual amor de quem não ama a própria liberdade antes mesmo de me amar.
Porque o amor tem que ser livre - em todos os sentidos.
E toda mudança, você sabe, requer um plano.
Algumas vezes, plano esboçado em folha de papel, e outras vezes, plano intuído no cérebro do homem. Mas a mudança mais gostosa é aquela que requer apenas um plano inclinado, por onde a gente escorrega em óleo de amêndoas como se fosse no corpo de um grande amor, desliza até a borda - e então salta feito Ícaro em direção ao vazio do belo escuro profundo da vida.
Quando as coisas resistem às idéias e o mundo resiste aos sonhos - não devemos mudar de sonhos, nem mudar de idéias: temos é que mudar de coisas ou mudar de mundo.

by: Edson Marques.
(Capítulo inicial do livro "Solidão a Mil.")

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