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Se você for a Santos, maravilhosa cidade da ilha de São Vicente, não se afobe. Não será num mês, nem num ano, que você vai conhecer a bela ilha de Iemanjá. Pra descobrir Santos é preciso ter paciência, é preciso se enturmar -coisa muito fácil. É preciso andar pelas quebradas da Baixada, subir morro, vagar pelo cais do porto, namorar nos barzinhos da orla. Pelo menos assistir o futebol-arte que se joga nas praias, freqüentar as quadras das escolas de samba. Aí, aos poucos, o forasteiro descobre Santos. E, então, quer morar lá. Porém (e sempre tem um porém), se o sujeito só tem um ou dois dias pra ficar em Santos, eu, que sou peixeiro, dou uma dica. Vá à praia na hora do por-do-sol. Essa é a minha hora. A tarde vai caindo serena. Os últimos raios de sol se esticam nas águas mansas do estuário. Parecem caminhos de ouro. Por esses caminhos deixe o olhar se perder no horizonte e entre numa viagem mágica. Eu sempre faço isso. Vou me prendendo nos grandes navios, que nessa hora parecem carregados de nostalgia. A barquinha dos práticos não vai mais busca-los fora da barra. ´E tarde. Os marujos ficarão ao largo. Nesta noite não vão descarregar suas agonias nas bocas pesadas. Vão ficar de longe, espiando os anúncios luminosos que piscam debochando dos tristes por esta noite de solidão. No meio dos navios surgem as traineiras. Vendo os pesqueiros que retornam, de alto-mar trazendo o peixe bom, lembro-me dos casos que ouvi dos caiçaras. "Um barco pirata atracou na barra. Os homens vieram à terra e roubaram um sino de ouro de uma igreja. Mas, quando iam saindo, um tiro de canhão do forte pôs a pique o barco pirata. Pois é. O sino afundou na saída do estuário." E nessa hora, quando a tarde cai serena e a brisa sopra na direção da praia, uma estrela muito grande surge, sobre os morros de Santo Amaro. Quem se liga nesse encantamento escuta o repique do sino no fundo do mar. E aí não quer mais deixar Santos. E, se for embora, voltará. Voltará. Plínio Marcos Obs. Esta crônica foi escrita entre abril e julho de 1995, para os "Roteiros Turísticos do Brasil", editado pela Folha de São Paulo, com patrocínio da Fiat.
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