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Muitas vezes me perguntam quantas
peças escrevi. Umas quarenta, digo como quem confessa. A pergunta seguinte,
quase invariavelmente, é de qual delas gosto mais. Sem acanhamento nem
cerimônia, digo todas. Por essa luz que me ilumina, é a mais pura verdade.
Todas elas me fizeram o que sou, me trouxeram sucesso e tudo o que ele
me acarreta. Por causa delas, tive a chance de ser fraterno, bom camarada,
de colecionar muitos amigos por todo o Brasil. Elas me deram a certeza
de que onde chegar estou chegado; e de que nunca vou passar fome ou frio,
pois sempre serei bem acolhido.
Porém (sempre tem um porém), de todas as peças que escrevi, houve uma
que foi a primeira, e ela é especial. E volta à cena agora, 41 anos depois,
pelo esforço de jovens talentosos que quiseram montá-la (e fizeram um
trabalho lindo), a começar pelo diretor Sergio Ferrara. Se ela ainda vale?
Claro, como valeu na estréia, há mais de quatro décadas. Vale mesmo, diz
a crítica especializada que se comoveu com o espetáculo em cartaz
no Teatro Eugênio Kusnet, em São Paulo. Isso se deve ao elenco que o Sergio
aglutinou, gente doada, se entregando ao texto com alma e entusiasmo:
Antonio Petrin, Jairo Mattos, Élcio Nogueira, Eric Nowinski, Adão Filho,
Antonio de Andrade, Silvio Restiffe e outros. Tem muito mais gente de
grande vigor envolvida, como J. C. Serroni e seus discípulos (cenário)
e Beti Antunes (figurinos e produção).
Lembro do mestre Nelson Rodrigues (outro autor enfocado no projeto de
ocupação do Teatro Eugênio Kusnet em 1999/2000), que dizia com meiguice:
"Você sempre deu sorte de encontrar bons atores e diretores para seus
textos". Pois é, ai estão o Sergio, o Petrin e os outros para não deixarem
o Nelson mentir. São todos ótimos! O espetáculo não podia ser melhor.
Dei sorte outra vez, como em todas as outras montagens de "Barrela", a
peça escrita pelo moleque Frajola, do Circo Pavilhão Teatro Liberdade.
Naquele tempo, a estréia no Teatro do Centro Português foi cheia de forrobodó:
polícia, censura, uma proibição atrás da outra. Escoramos as broncas
e aprendemos que respeito se conquista encarando as encrencas. Tiveram
que me engolir. Estão tendo que me engolir ainda, com casca e tudo, e
será assim até o final dos meus dias. Uma vez, numa festa em Santos, botaram
uma faixa em minha homenagem: "Plínio Marcos, o Saltimbanco do Macuco".
Pois é, esse sou eu: saltimbanco do Macuco, meu bairro querido, o bairro
da minha vida, o pedaço de mundo que me deu tutano, sustento e energia,
o pedaço de mundo que forjou em mim amor à vida e vontade de lutar contra
qualquer opressor. Por ser do Macuco, me fiz guerreiro. Por ser guerreiro,
me fiz lutador pela liberdade de expressão. Por tudo isso, escrevi "Barrela"
e, depois dela, um monte de peças.
Recentemente veio uma rapaziada aqui em casa pra saber histórias do Jabaquara;
eles vão encerrar o ano na Faculdade com um estudo sobre o nosso Jabuca.
Contei casos e mais casos. No final, um dos rapazes me perguntou se sempre
fui jabaquarense com sinceridade. "Sempre; uma vez Jabuca, sempre Jabuca",
respondi. Depois outro garoto mais atrevido quis saber se sou bairrista.
"Não, de jeito nenhum, apenas sou do Macuco; e uma vez macuqueiro, macuqueiro
hei de ser para sempre". Há poucos dias, apareceu uma moça muito bonita
numa festa se apresentando a mim como leitora do Jornal da Orla; ela coleciona
as histórias que eu conto aqui nessa Janela Santista, e tem predileção
especial pelas do Jabuca. A moça se chama Meire e foi aluna de mestre
Rossini, folclorista respeitadíssimo. Ela acha que essas histórias do
Jabuca (e as do Macuco, e as de Santos inteira) têm vida, são folclore
puro, mostram uma visão de mundo, um jeito de viver e de ser. Está certa.
Citei esse depoimento dela para a turma da Faculdade de Jornalismo. Com
certeza, o mestre Rossini, já falecido (prá prejuízo da Nação), está feliz
com essa sua ex-aluna. Quem vai atrás do Jabuca acaba mexendo com os quilombos
da Nova Cintra, folclore legítimo, de primeira linha.
Pra fechar o círculo, só falta levarmos essa "Barrela", que está em cartaz
em São Paulo, para Santos. Podia ser obra de um animador cultural genial
como Toninho Dantas... Aliás, na abertura do recente Festival de Teatro
em Santos, Toninho prometeu que levaria a "Barrela" pra minha terra de
novo. Vou fazer pressão até ele se render... Vamos com a "Barrela" para
Santos, com certeza. Eu, o saltimbanco do Macuco, mereço isso. Portanto,
fica aqui um recado para o Toninho Dantas: venha assistir a peça aqui
em São Paulo para levá-la pra Santos. Estou te esperando.
Plínio Marcos
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