Resistir é Preciso......

                                                            

     A recente realização do Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto, foi uma clara demonstração de resistência de parte de seus idealizadores e organizadores, aos padrões impostos pela atual gestão da Secretaria de Estado da Cultura. Não fosse a pronta intervenção do Governador Mário Covas, em atendimento à reivindicação efetuada pela produtora cultural Lulu Librandi, em função do Manifesto divulgado pelo Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo, por certo este certame teria seu final decretado após trinta anos de atividades.

     Fervilham por todo o Estado manifestações, insatisfações e críticas contra a forma como a Secretaria de Estado da Cultura define os projetos e os eventos aos quais vai ceder seu patrocínio. Orçado inicialmente em 280 mil reais, o Festival Nacional de Rio Preto teve sua programação mutilada e quase cancelada, quando a Secretaria resolveu contribuir com apenas 20 mil reais, da importância que havia sido acordado em reunião realizada na própria Secretaria ao início do ano.

     No entanto, para a concretização do Festival de Inverno de Campos do Jordão, cidade sede do veraneio da nata social paulistana, a Secretaria amealhou entre patrocinadores a módica importância de dois milhões de reais, segundo o divulgado pela imprensa da Capital. Que fique claro que o Festival de Inverno é um evento cultural de importância internacional. Mas da mesma forma, que fique claro aos gestores da Secretaria de Estado da Cultura, que o Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto, é um certame de importância nacional. Da mesma forma, o Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente, que foi cancelado este ano por absoluta falta de colaboração da referida Secretaria.

     Ambos os Festivais Nacionais são uma radiografia, constituem-se em fotografias atualizadas daquilo que está sendo produzido e encenado teatralmente em todo o território nacional. São certames onde se revelam novos dramaturgos, novos diretores, atores, atrizes, cenógrafos e demais profissionais das várias áreas das artes cênicas. São focos de nascimento de novos quadros para o teatro, para o cinema e a televisão do país. Não dá mais para os agentes oficiais da cultura paulista ficarem encastelados em seus cargos, sentadinhos em suas cadeiras atrás de mesas, em saletas confortáveis, aguardando apenas o salário mensal. Tem que sair à luta, verificar o que está acontecendo em todo o Estado.

     Com a intervenção do Governador Mário Covas, que determinou o aumento da participação financeira da Secretaria no evento de São José do Rio Preto, verifica-se mais uma vez, que algo não anda como devia. Entendo desnecessário que um Governador tenha que ser perturbado para solucionar um impasse criado na assessoria do Secretário de Estado da Cultura, por motivos ainda não muito claros. Da mesma forma, a ausência de representantes da referida Secretaria nesses eventos, torna-se uma clara demonstração de indiferença para com os produtores culturais do interior, o que de resto, também acontece com os produtores de importantes eventos realizados na Capital.

     Parece que os gestores da cultura oficial paulista só têm olhos para mega-eventos, tipo Festival de Inverno de Campos do Jordão; sala de espetáculos da Estação Júlio Prestes; produções da Sociedade Gastão Tojeiro e que tais. Para os fatos que estão ocorrendo e que atingem o Teatro Oficina não há uma palavra de apoio; para patrocinar "A Odisséia do Teatro Brasileiro", Projeto Àgora Livre, dos diretores Roberto Lage e Celso Frateschi, não existe um centavo. Isto para citar apenas dois eventos na Capital.

     Muito embora tenha sido no passado, um dos lutadores pela criação da Secretaria de Estado da Cultura, sou obrigado hoje, a concordar, que a mesma não vem cumprindo suas finalidades como devia. Precisa urgentemente de mudanças estruturais e, principalmente, mudanças em seus gestores, notadamente, no quadro de assessoria que deixa muito a desejar. De nossa parte, cumprimentamos os organizadores, participantes, e todos quantos colaboram para o sucesso alcançado pelo Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto, um marco das artes cênicas do país.

by: Carlos Pinto
10/08/2000

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