NA
REPÚBLICA DA DELAÇÃO

O comentarista Luiz Nassif publicou
em um dos jornais da Capital, um brilhante trabalho onde analisa os efeitos
da delação sem fundamento, e do linchamento moral a que foi exposto o ex- Ministro
da Saúde Alceni Guerra, em função do episódio da compra de bicicletas para o
seu Ministério. "O Prefeito Modelo", artigo a que me refiro, merece ser lido
e analisado em profundidade, para que tomemos consciência do mal irreparável
que uma imprensa irresponsável, apoiada na falta de caráter de delatores anônimos,
pode causar na vida de cada um de nós.
De uma certa forma a nossa história é recheada de personagens de caráter duvidoso.
Do episódio que envolve Calabar, passando pelo Cabo Anselmo, até os tempos atuais
onde a delação está quase oficializada, um simples telefonema ou uma carta anônima
para uma dessas CPIs pode transformar um cidadão correto no mais perigoso traficante.
Se de um lado observamos hoje, determinados setores da mídia compromissados
com um jornalismo sensacionalista, irresponsável e distante de qualquer dos
itens que compõem o código de ética da profissão, temos também representantes
do povo, eleitos com a finalidade de bem nos representar nos parlamentos, promovendo
o aparecimento de notícias que não resistem a dois segundos de investigação
pois, desprovidas de provas materiais ou mesmo de indícios que não os da delação
anônima, terminam na sarjeta a que são relegadas essas denuncias vazias.
Enquanto isso, se expõem cidadãos e suas famílias, a um noticiário escandaloso.
Se misturam homens de bem, com folha de serviços prestada à sociedade, a marginais
de toda espécie, sem se ter o cuidado de analisar detalhadamente para efetuar
a devida separação do joio e do trigo. Existe hoje no país, uma avidez incontrolável
pelo escândalo, pela deturpação de fatos e pelo linchamento moral de quem quer
que seja. Os fatos recentes ocorridos com os proprietários da Escola Base, em
São Paulo, já deveriam ter servido de argumento para se dar um basta nessa patifaria.
Determinados profissionais da imprensa, deveriam se ater a um cuidado maior
na divulgação de fatos sem que estejam de posse das provas necessárias. Deveriam
também, de vez em quando, dar uma revisada em seus conceitos, ler o código de
ética da profissão, e se ilustrar através de alguns escritos, entre os quais
posso citar a "História da Imprensa no Brasil", do General Nelson Werneck Sodré,
ou mesmo, nos escritos deixados por José Joaquim de Campos Leão, mais conhecido
por Qorpo Santo, a quem se atribui a elaboração do primeiro código de ética
da profissão.
Quanto a alguns membros da CPI da nossa Assembléia Estadual, um pouco de cautela
e um distanciamento maior dos refletores, por certo deixará de lhes ofuscar
a visão e propiciar a elaboração de um trabalho à altura do Parlamento que representam.
Não adianta se postar como ex-policial e tentar passar a visão de que é profundo
conhecedor do crime organizado. Deputado não é polícia, pode ter sido. Deixem
os palcos e os refletores para os profissionais das artes cênicas.
Quanto aos amigos envolvidos nessa irresponsável estória de delação anônima,
só posso lhes prestar minha solidariedade. Como vítima que fui no passado, ao
tempo do regime de exceção, de delações desse quilate, posso seguramente entender
como se sentem e como se encontram seus familiares. O Dr. Alceni Guerra, deu
a volta por cima e está provando que sempre foi um homem de bem, razão pela
qual, é hoje o Prefeito modelo para este país.
Temos que dar um basta e impedir que a delação anônima se transforme, em breve
tempo, num instrumento oficial, próprio dos regimes de exceção. Afinal de contas,
pagamos um alto preço para respirar o ar puro da liberdade, para poder abrir
nossas janelas para a entrada do sol quente da manhã, e praticar novamente uma
das mais salutares atividades humanas: eleger e ser eleito.
By:
CARLOS PINTO
04/06/2000
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