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A estréia nacional desta nova montagem de "Abajur
Lilás", proporcionou a nós, santistas, um feliz reencontro com a obra dramatúrgica
de Plínio Marcos. E essa felicidade nos atinge por várias janelas, através
das quais pudemos observar as várias nuances deste belo espetáculo, onde
ressaltam alem do texto, as perfeitas interpretações de Ester Góes, Francarlos
Reis, Magali Biff, Lavinia Pannunzio e Elder Fraga, sob a competente e segura
direção de Sergio Ferrara.
A obra de Plínio Marcos permanece atual. A questão de poucos dias, o noticiário
policial estampava matéria onde se relatavam fatos idênticos aos abordados
por "Abajur Lilás", como a nos dizer que nada mudou. E se nada mudar, a
dramaturgia de Plínio Marcos permanecerá atual por várias e longas décadas.
Escrita a mais de trinta anos, relata fatos por demais conhecidos, onde
três prostitutas são exploradas em um bordel da faixa portuária, cujo proprietário
é um homossexual decadente.
Plínio tinha a virtude de observar os fatos e fotografá-los mentalmente,
e com a competência de um mestre da literatura, os passava posteriormente
para o papel. Quantos de nós não tivemos oportunidade de observar ou de
tomar conhecimento de fatos iguais aos relatados por Plínio em sua obra.
No entanto nos falta aquele algo mais que só um mestre da dramaturgia possui.
E ele é um desses mestres da literatura dramática brasileira.
O enfoque dado ao personagem "Giro", sua construção, seu sarcasmo e sua
virulência, atestam mais uma vez a qualidade técnica de Francarlos Reis,
seguramente um dos melhores atores do teatro paulista. Em todo o desenrolar
do espetáculo, "Giro" nos lembra as figuras grotescas da opressão, torturadores
de plantão existentes em qualquer regime de exceção. Francarlos não excede.
Com um personagem que dá margem a caricaturas, ele se mantém dentro dos
limites da dignidade cênica que cada personagem da obra teatral merece.
"Dilma", vivenciada por Ester Góes, cuja única preocupação, ou meta, ou
visão de vida, está intimamente ligada à garantia de um futuro melhor para
seu filho, é uma personagem que encontra nesta premiada atriz, seu ponto
de exuberância. Contida pela opressão de "Giro" em função do filho que tem
para criar, "Dilma" nos passa a dor, a descrença, o desânimo, a falta de
perspectivas e a incerteza do dia de amanhã, que a levam a se submeter aos
caprichos do gigolô. É a velha temática da relação capital e trabalho, que
hoje observamos com muita nitidez neste capitalismo selvagem travestido
de globalização da economia. Não ocorre apenas e tão somente nos bordéis.
Faz parte do cotidiano da classe operária brasileira. Seu texto final, dito
com tamanha veemência, por certo leva e levará muitos espectadores às lágrimas.
E só uma grande atriz tem esse poder e talento. É o caso de Ester Góes.
Magali Biff empresta à personagem "Célia", as características da contestação.
Não agüenta mais a opressão e a exploração. Quer reagir eliminando a causa
de suas desgraças. Na verdade não tem a plena consciência de que "Giro",
é apenas um instrumento do sistema e sua eliminação, em nada mudará esse
sistema. Existem outros "Giros" acima dele, mais discretos talvez, mas com
certeza mais violentos e mais vorazes. O desempenho de Magali Biff nos transmite
com clareza o seu recado de que temos que reagir. Que não dá para continuar
aceitando as regras do jogo, e que a sociedade precisa de novas regras e
novas perspectivas de vida. No dizer de Brecht, temos que encontrar os caminhos
que nos levem ao velho tema do homem parceiro para o homem, e nunca, continuar
nesta farsa grotesca que traz como pano de fundo, a opressão de uns sobre
os outros.
Lavinia Pannunzio, interpretando "Leninha", e Elder Fraga, no personagem
"Osvaldo", compõem a homogeneidade do elenco. "Leninha" é a própria ingenuidade.
Entende que através de uma boa conversa, pode mudar as formas do opressor
e transformá-lo num ser humano dócil. Me lembra muito a esquerda festiva
que quer reformar o país nas mesas de botequins, saboreando um bom e velho
uísque escocês. E acima de tudo, temos que ressaltar a boa interpretação
de Lavinia Pannunzio. "Osvaldo" é o típico leão de chácara. Sempre pronto
para cumprir as ordens do "patrão", seja ele quem for. Desprovido de qualquer
sensibilidade, este personagem é o executor das desgraças que o opressor,
que jamais gosta de sujar as próprias mãos, determina que ele cumpra. Elder
Fraga está perfeito no papel.
Cenários, figurinos e adereços de cena, completam esta bela montagem de
"Abajur Lilás". Sem preciosismos e excessos, servem ao texto e à direção,
como sempre observou Brecht. A direção do espetáculo é de Sergio Ferrara,
um expoente desta nova safra de regentes cênicos que o teatro paulista vem
revelando. Ganhador do Prêmio APCA do ano passado, por certo, com esta direção
de "Abajur Lilás", se inscreve para o prêmio de melhor diretor deste ano.
Sua direção é segura, atenta a todas as perspectivas e propostas contidas
no texto, sugando de cada componente do elenco o que de melhor ele pode
desvendar em seu personagem, deixando de lado "criatividades" muito a gosto
de alguns diretores famosos, que mais se assemelham a falsos brilhantes.
Sergio Ferrara, trilha os caminhos do teatro compromissado, da arte como
vanguarda e denunciadora dos desmandos sociais. Por certo vai nos brindar
pelos próximos anos, com outros trabalhos de peso, perpetuando seu nome
na cena brasileira. O que já fez até aqui, lhe garante esse caminho.
E para a sedução desta montagem, temos a contribuição da bonita linha musical,
típica das casas de tolerância nos anos 50/60, que acompanha o desenvolvimento
de todo o espetáculo, que merece, por todos os motivos aqui expostos, ser
apreciado pelos amantes do bom teatro.
by: Carlos Pinto
Jornalista
12/04/2001
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