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O
PROFETA ENGANADOR OU ENGANADO
Está certo que meu puçá não vai além da superfície
e que, por essas e outras, eu só pesco o que vem à tona. Mas, aparece
tanta gronga boiando nas águas barrentas em que navego contra a maré,
que vivo assombrado com os lances que sou obrigado a encarar. Meu patuá
de fé e de valia já anda até entortado, de tanto que me agarro nele pra
não naufragar. O caso do garotão que, de repente, se entusiasmou por escola
de samba é bem desse naipe.
O bruto, que era estudante de Comunicações, se baseava em tudo quanto
era de bidu estrangeiro. Aliás, desde o primeiro ano primário, o garotão
recebeu ensinamentos na base gringa. Claro que a culpa não era dele. Seus
mestres é que eram ligados na culturas das Europas da vida. Mas, de quem
é a culpa, interessa, só que não vem ao caso discutir agora. O que pesa
na balança é que o garotão era taco em Marcuse, em Grotoviski e em outros
bichos. Sabia onde ficava o Museu do Louvre e outros lugares onde estão
enfurnadas as obras dos grandes artistas da humanidade. E isso era bom,
claro. O que era ruim é que o garotão nunca escutara falar dos grandes
mestres do seu país. Nem conhecia os lugares da sua cidade onde se fazia
arte popular. Largo da Banana, os porões do Bexiga, Rua Direita, eram
coisas estranhas pro garotão. No máximo, o danado sabia alguma coisinha
a respeito de cangaceiro e caatinga, por Ter visto filme. E, nessa toada,
era natural que o garotão, um dia fosse conhecer os trecos de que tanto
escutara falar. Com a grana do pai, se mandou pra Europa. Meteu as botucas
em tudo e não se entusiasmou. Com a gentalha daquelas bandas, o garotão
se ouriçou pra valer. Achou a Europa uma decadência. Se mandou para os
Estados Unidos e ficou pasmado com os trambiques do progresso, mas se
assustou. O povão estava, em sua opinião, meio abestalhado. Enfim, o garotão,
lá em terras estranjas longe da pátria amada, virou patriota. Sentiu saudade
do feijão com arroz. Ele, que na sua discoteca só tinha disco de cantor
gringo, quis escutar samba. Mas, qual o que! Foi impossível. Quis ver
filme brasileiro, outro crepe. Não teve onde. O jeito foi retornar rapidinho
pro Brasil.
Aqui chegando, quis se embriagar com as coisas de sua terra. Ligou a televisão
e assistiu a filmes e mais filmes de cowboy. Ligou o rádio e escutou músicas
e mais músicas importadas. Espiou os cartazes de cinema: nem um filme
brasileiro anunciado. A cachola do garotão ferveu. E ele embatucou. Saiu
zonzo atras dos amigos e falou e ouviu às pamparras. Se inteirou da nova
moda, que era popularização da cultura. Claro que essa marola entusiasmou
o garotão e ele se segurou com unhas e dentes na campanha de valorização
da cultura popular. Nego entusiasmado estava ali. Com todas as forças
da sua caixa de catarro, meteu a boca no trombone em favor da sua nova
causa. Pichou (e com razão) os veículos de comunicação. Esculachou (e
com razão) os importadores de cultura. E, nesse embalo, começou a xeretar
nas coisas do povo.
Se botou a frequentar o samba. Primeiro, o das boates sofisticadas do
centro da cidade. Aí, conheceu um criouléu da pesada e foi levado a uma
escola de samba. O garotão vidrou. Se gamou. Ficou freguês. Não perdia
uma roda de samba. Vendo as cabrochas dizendo no pé com toda categoria,
o garotão subia nas mesas e gritava:
-É isso aí, bicho! É, isso, aí, bicho!
O dono do samba gostou do garotão, principalmente porque desconfiou que
ele era de família bacana e que podia comparecer com alguma grana pra
escola. Só por isso, convidou o garotão pra fazer parte da diretoria.
Nomeou-o relações públicas da escola. O garotão, emocionado, aceitou e,
na posse, em discurso inflamado, jurou pela luz que o iluminava que iria
dar o melhor de si para a escola de samba. O dono do pesqueiro deu corda.
Estava contando com um loque que podia dar uma boa ajuda. Mas, se enganou.
A intenção do garotão era boa. E ele, realmente, queria dar o melhor de
si. Mas, era justamente aí que tudo se embananava.
O garotão, estudado, viajado, e os cambaus, era mais bem informado, mais
desembaraçado, mais presepeiro e confiante do que o pessoal da escola
de samba, que ainda estava queimando as pestanas no Mobral. Nessa catimba
o garotão se impôs. Em nome da sua cultura, que nada tinha que ver com
a cultura popular, o garotão criticou e avacalhou o pessoal que sempre
botava o carnaval na rua. Recusou os enredos que os compositores da escola
sugeriam e ele próprio bolou um enredo. Achincalhou as letras dos sambas
apresentados e, com o pretexto de melhorar o nível cultural do povo, foi
buscar um seu amigo, poeta famoso, pra fazer a letra do samba. E a letra
do poeta foi musicada por um musico famoso da Orquestra do Municipal.
A gente simples da escola não teve coragem de estrilar. Engoliram. E também
aceitaram quando o garotão escalou um costureiro badalado da alta sociedade
pra fazer os figurinos. Comendo enrolado, o povão da escola não teve como
recusar o decorador importante que o garotão trouxe pra caprichar nas
alegorias.
O dono da escola gostou das iniciativas do garotão. A vinda de artistas
de tantos méritos e prestígios fez a escola figurar nas colunas sociais
dos jornais. E essa milonga atraiu as vedetes e grã-finagem. Gente bacana
e endinheirada se alistou pra sair no carnaval pela escola do garotão.
Os ensaios ficaram cada vez mais concorridos. Carros ultimo tipo parados
na porta da quadra, a birosca vendendo uísque em vez de cachaça faziam
gosto aos dono da escola de samba e ao garotão.
Só que o povão se encabulou e se afastou. Perdeu a escola de samba, a
quadra e a birosca. Caíram fora. Mas, sem desanimar pela chavecada, se
organizaram em bloco. Por falta de lugar para ensaiar, foram fazer seu
sambinha numa esquina das quebradas do mundaréu. Mas, o barulho incomodou
a vizinhança. Chamaram a cana. Quando a polícia chegou e viu muito
crioulo reunido, não pediu nem documento. Entrou todo mundo em pua. Disso,
ninguém tomou conhecimento. Muito menos o garotão, que está todo empolgado
com seu trampo, dando entrevistas violentas contra os veículos de comunicação,
que não dão colher de chá pro samba e só favorecem os trustes da cultura
e os importadores de arte.
Legal o garotão, que não se manca. E está falando tanto, tanto, que já
está sendo olhado como esquerdista e subversivo perigoso, muito embora
não se saiba pra que time o desgraçado jogue.
Plínio Marcos
(14/06/1975)
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