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AS
PROFESSORAS DE CUBATÃO

Tenho ido a Cubatão
a convite do meu amigo Nei Eduardo Serra, o prefeito. Gente
boa, gente da Baixada. Ponta-esquerda que fez e aconteceu
pelo Santos Futebol Clube de glórias mil e por outros times
da Baixada. Nei Serra honra seu passado de bom de bola fazendo
um trabalho de grande gabarito lá em Cubatão. Escalou a
bela Mônica Prado para a pasta da Educação. Ele, junto com
seu time, faz as coisas evoluírem por lá.
Mas o que me encantou mesmo lá em Cubatão foram as professoras
da João Ramalho, a escola onde eu comecei um trabalho por
lá. Todas muito bonitas, e sobretudo muito alegres. Amigas
dos alunos. Uma festa! Eu estava lá, falando pra turma da
escola e elas todas rindo muito, brincando, como deve ser.
Assim deve ser a vida. Me enchi de entusiasmo. Vou visitar
várias outras escolas de Cubatão e, com certeza, vou encontrar
um ambiente descontraído como a do João Ramalho.
O mais maravilhoso foi encontrar, entre essas professoras
vocacionadas, a filha de um grande amigo, o Rios, encadernador;
ela dá aula na João Ramalho. Esse velho Rios foi um cara
que fez das tripas coração pra me tirar das ruas (eu era
um inquieto palhaço gago) e pra me ajudar a encontrar um
rumo. Eu só podia ter ficado feliz da vida de ver a filha
dele lá, tão bonita, tão alegre, tão querida das colegas
e dos alunos. O Rios deve estar muito feliz com essa filha
que Deus lhe deu.
Ao vê-la, lembrei vivamente das noites no bar Regina, com
todos aqueles intelectuais -Narciso de Andrade, Nelson de
Andrade, Maurice Legeard, Roldão Mendes Rosa, Patrícia Galvão,
Gilberto Mendes e tantos outros. Que Deus o tenha! E que
me perdoe por ter dado tanto trabalho para o mestre encadernador.
Rios foi um herói do povo brasileiro; lutou com grande bravura
de várias formas. Tenho muito orgulho de ter sido amigo
dele. Ele não acreditaria, mas juro por essa luz que me
ilumina que tenho muita saudade dele.
O velho Rios passava horas e horas contando histórias da
prisão da Maria Zélia, onde gente de muita coragem ficou
presa (valentes como o Rios e a Pagu), gente que encarava
os esbirros do Morro de Santo Antonio, que vinham do Rio
de Janeiro para perseguir, prender e torturar os que pregavam
a liberdade. Muitos bravos peixeiros que andaram e andam
pela Baixada (o grande Cebola, Mazinho Bio e tantos outros)
estiveram lá. E o velho Rios contava suas histórias...
Essas idas a Cubatão estão me trazendo incríveis lembranças.
Havia grandes times de futebol. O Comercial Santista, mantido
pela fábrica de papel local, era um timão. Dali saíram vários
craques para a Portuguesa Santista. O Cubatão era outro
timaço. Enfrentar esses times era parada dura, no pau e
na bola.
Ah, Cubatão... Um dos primeiros circos em que trabalhei
foi o do grande palhaço Borracha, quando esteve instalado
justamente em Cubatão. Astrogildo Filho, um dos maiores
galãs da extinta tevê Tupi, estava na companhia; o Astrogildo
(que pouco antes de morrer fez uma peça minha: "Oração para
um Pé-de-chinélo") foi acompanhante do Assis Chateaubriand
e do Ricardo Garcia (que trabalhou muito tempo comigo no
Pavilhão Teatro Liberdade). "Seu" Borracha foi um dos grandes
palhaços que eu vi atuar, o circo dele era bem luxuoso e
fazia muito sucesso em Cubatão.
Lá, também, trabalhei no Parque Teatro Atlas. Era um parque
de diversão. Nós, os artistas, servíamos para esconder o
jogo, que rolava atras do palco: tinha roleta, tira vira-baixo,
um jogo pesado. Aliás, naquela época, Cubatão era barra-pesada.
As pessoas vinham do Norte e do Nordeste pra arrumar emprego
na refinaria; dormiam em beliches instalados nos alojamentos
e saía muita briga. Não raro tinha morte. Muitas ficavam
doentes. Os portugueses, que eram os pioneiros de Cubatão,
foram indo para Santos. A gente costumava dizer que Cubatão
era "a terra dos homens maus". Assim mesmo, eu trabalhava
por lá como artista e gostava muito.
A gente de Santos adorava fazer teatro na Comercial Santista.
Muitas vezes trabalhei lá, na companhia da Wilma Duarte
ou do Zé Garrafa. O povo de Cubatão é teatreiro. Pena que
hoje esteja sem teatro. Tem um em construção, mas a obra
está parada. Uma pena! Uma cidade tão bonita não podia estar
sem teatro. Não podia estar privado de ver e fazer teatro
numa bela casa de espetáculos um povo que gosta tanto de
teatro. Ninguém me contou, eu vi: nove horas da matina,
um bando de meninas chegando para ensaiar teatro na escola.
Olha aí, amigo Nei: esse povo de Cubatão merece um teatro.
Está pra você, marcar um gol de placa como os que você fazia
quando era moleque na Ponta da Praia.
Plínio Marcos
(27.06.1999)


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