Relaxe e Reflita.....Poetas Famosos.....Relaxe e Reflita......Poetas Famosos....

 

(Os Versos que te dou)

                                     (J. G. de Araújo Jorge)

Ouve estes versos que te dou, eu os fiz
hoje que sinto o coração contente
- enquanto o teu amor for meu somente,
eu farei versos ... e serei feliz ...

E hei de fazê-los pela vida afora
versos de sonho e amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
- ...esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura
são versos meus, mas que são teus também ...
Sozinha , hás de escutá-los sem ninguém
que possa perturbar nossa ventura...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia , mais tarde, revivê-los,
nas lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los ... com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também , de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido
e outros versos quiseres, teu pedido
deixa ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá, novamente, então tu fores,
podes colher do chão todas as flores
pois são versos de amor que ainda te dou!

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O HAVER

                                     (Vinícius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.

Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior ante diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.

Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade,
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionando e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que as vezes os poetas tomam por esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão de seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.

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A Flor e a Náusea

                                          (Carlos Drummond de Andrade)

Lembra daquela flor?
Aquela, que nos causou
ESPANTO
ao vermos que ela cresceu tanto?
Não está mais naquele velho jardim
foi despejada.
Mudou de lugar
Está em um museu
No museu das memórias...

Não conhecia esse lugar
e sem que eu percebesse
ou notasse
chegou até mim
um ticket de entrada nominal:
à Srta. Fernanda
Tonteei
Vertiginosamente
e...
Não entendi
Não queria ir ao lugar
Estava com medo!
Não queria ir sozinha
Estava com medo!
Não queria saber o que era
Estava com medo!

Quando cheguei...
Vi uma placa com o meu nome
Quando entrei, estava sozinha
Vi vitrines vazias
E então encontrei
Dentro de uma redoma
A FLOR
Aquela...
Aaaaaaaah! Que grito contido na garganta!
O eco era assustador.
Eu estava sozinha...
Não sabia para onde ir
e ainda não sei direito para onde ir...

Só sei que ela está lá
Como um troféu,
ou relíquia
Ainda não murchou
Nem cresceu
Ficou estagnada
Parada no tempo
Diariamente volto à esse lugar
Onde descobri um anfiteatro
Onde eu me sento...
E assisto... O passado
Ainda estou presa nele
E revejo, repasso, reconheço,
o crescimento dessa flor
Capítulo por capítulo
Minuto por minuto
Refaço na minha cabeça,
Tudo o que aconteceu...
Levanto
Olho a flor,
Que não vai mais crescer,
Vai ficar parada no tempo
E... não vai mais inundar mais cada espaço vazio,
Como um dia você disse que ela iria...


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Remorso

                (Olavo Bilac)

Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah ! Mais cem vidas ! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando !

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse !

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