PLINIO MARCOS
 ( O Silêncio da Voz dos Excluídos)  

Frajola

Era primavera de 1946. Meu pai pegou-me pela mão e lá fomos nós, em direção da Av. Conselheiro Nébias. Morava no Macuco, na Rua Luiz Gama, e através do bonde 4 fomos para a Ponta da Praia. Meu velho tinha cismado que eu deveria aprender a nadar e virar campeão desse esporte. Fomos direto para o Clube de Regatas Vasco da Gama, onde preenchi ficha de associado, o que sou até hoje, e depois me apresentou para o prof. Elni Camargo, que era o técnico de natação do clube.

Orientação recebida, me apresentaram para dois garotos um pouco mais velhos que eu, também aprendizes de natação. Um deles, mais tarde viria a se constituir em um dos mais brilhantes advogados deste Estado, que durante o regime militar de 1964 enfrentou toda sorte de pressões e ameaças, mas se fez brilhante na defesa de vários presos políticos encarcerados pela ditadura, e cuja amizade prezo até hoje : Iberê Bandeira de Melo.

O outro, de estatura menor, com cara de travesso, passou à história da cultura brasileira como um de seus maiores dramaturgos, contista de primeira linha, voz inconteste da grande massa de excluídos gerados pela injustiça social reinante na sociedade brasileira: Plínio Marcos de Barros.

O tempo andou e me perdi dos dois que desistiram do esporte. Iberê partiu para seus estudos e carreira profissional e, Plínio, foi tentar sua vida como profissional de futebol. Com o tempo também larguei a natação e me dediquei a outro esporte, enquanto continuava meus estudos no Escolástica Rosa.

Plínio virou "Frajola", palhaço de um circo que mambembava pelo Macuco, e iniciava seus escritos na dramaturgia. Li sobre ele durante o Festival Nacional de Teatro de Estudantes, que Paschoal Carlos Magno, com ajuda de Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz e o Prof. Carranca, organizaram e realizaram em 1959 em Santos. Lá estava ele começando a "incomodar" com sua "Barrela". No ano seguinte, como ator de um grupo da Faculdade de Direito de Santos, Plínio esteve em Porto Alegre, em outra edição desse mesmo Festival. Como o relógio do tempo não para e nem espera, chegou 1964 que me pegou na Refinaria de Cubatão, envolvido com o sindicato, o clube dos funcionários e outras questões. Começava aí, o meu retorno ao convívio de Plínio Marcos, já então uma figura emergente da cena brasileira.

Ao longo desse convívio estivemos em algumas oportunidades, em lados opostos. Lembro-me de uma reunião da classe teatral realizada no Teatro Aliança Francesa, onde Cacilda Becker, então Presidente da Comissão Estadual de Teatro, prestava contas de sua gestão aos seus companheiros de atividade teatral. Plínio contestou determinada colocação de Cacilda e dividiu a área. Nessa oportunidade eu fiquei ao lado de Cacilda, até por conhecer com mais detalhes o que ela estava expondo.

Posteriormente tivemos um novo entrevero, aí na qualidade de Presidente da Confederação de Teatro Amador do Estado, em função do Plínio ter proibido a encenação de seus textos por grupos amadores. Como o tempo é o melhor conselheiro, entendo hoje que não faltava razão às colocações que ele me fez naquela oportunidade. Mas nada disso abalou nossa amizade, nem mesmo, as costumeiras fofocas do meio teatral, fator preponderante da desunião dessa classe.

Ultimamente nos falávamos quase que diariamente. A pouco mais de duas semanas estive visitando o Plínio no Incor, junto com o Thanah Corrêa, onde abrimos o baú e relembramos várias personagens de suas crônicas, figuras que construíram grande parte da história considerada marginal, desta cidade de Santos. Falamos da Boca, de Nego Orlando, Luciano, Oswaldo Malcriado, Velácio, Toninho Navalhada, e tantas outras figuras folclóricas que se tornaram personagens vivas, reais, de seus escritos. Nada de figuras criadas pela imaginação do autor. Personagens criadas pela exclusão social, vítimas do sistema gerado pelas elites, grande parte dela hoje envolvida nessa vergonheira de crime organizado. As personagens de Plínio são de um tempo em que existiam malandros. Hoje, o que vemos, são mesmo bandidos da pior espécie, alguns dos quais, residem nos mais luxuosos condomínios deste país.

E Plínio era a voz cáustica dessas personagens, cujo espaço na mídia era sempre e, até então, na página policial. Plínio os elevou ao status de personagens da crônica e da dramaturgia brasileiras. Reconheceu nelas valores que todos nos carregamos, mas que dependem muito de oportunidades para aflorar, oportunidades essas que na maioria das vezes são negadas pelo sistema vigente. Plínio era um investigador nato das peripécias criadas por essas figuras e a elas, deu um lugar de destaque em sua obra literária.

Resta-nos, agora, reverenciar-lhe a memória no mais silencioso dos adjetivos, já que o silêncio sempre foi "a plenitude da palavra, da mesma forma que a palavra é a plenitude dos sentidos, jamais dos sentimentos". Se a palavra é mero "meio termo entre a nudez dos sentidos e o silencio final da alma humana", pouco poderemos fazer com ela nesta oportunidade, para transmitir a multiplicidade de alguém que transitou entre nós, multiplicando sua própria imagem.

Homenageemos pois, ao amigo Plínio Marcos, a voz do excluídos, que no plano da vida total praticou seu último ato : o silêncio.

Carlos Pinto

mais uma estrela sobe...

clique na estrela para voltar