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O PIO DO MACUCO

Macuco

Com a vida custando os olhos da cara do jeito que está, tem gente se agarrando em fio desencapado, matando cachorro a grito, jacaré a beliscão, fazendo qualquer negócio pra defender o feijão de cada dia. E isso já faz tempo... Por isso, não causa espanto a profissão escamosa do Onorino: ele vivia de matar macuco. Todo santo dia se metia nas matas de Mangaratiba, ajudando a acabar com a espécie dessa ave para garantir a continuação da sua - ou seja, para sustentar mulher e quatro filhos.
Outrora paraíso de macucos, inhaúmas, jacus, jaguatiricas e outros bichos, as matas de Mangaratiba eram alvo também de esportistas, caçadores de fim de semana. Como Antoniel da Cruz e Adolfo de Castro, gente bem plantada dentro da sociedade - mas nem tanto que desse pra caçar leão na África. Antoniel e Adolfo se enfeitavam de caçadores e metiam as fuças nas matas de Mangaratiba, com mochilas de badulaques: facão, espingarda de grosso calibre, própria para derrubar elefante; repelente contra inseto; cerveja em lata; e um apito de chamar macuco.
Um dia, parece até que Antoniel e Adolfo combinaram horário com o Onorino. Entraram na mata no mesmo instante, só que por lados opostos. Os dois caçadores de araque lamentavam o cano que o Nego Leléu deu neles; o Leléu, que não era otário, prometeu que ia, mas logo se mancou que seu papel na fita seria o mesmo que crioulo em filme de Tarzã e não compareceu; não ia passar o dia carregando o saco dos caçadores pra virar isca de onça. Nem por isso os otários se acanharam. Às primeiras horas da matina, se enfurnaram mata adentro.
Antoniel e Adolfo foram logo assoprando o assobio de fêmea de macuco pra atrair macuco macho. Do outro lado, Onorino avançava também, piando como fêmea de macuco para atrair macuco macho. Mas, do jeito que andam matando bicho no Brasil, daqui a pouco só vai Ter caça noturna, na Praça da República e afins... Os caçadores bateram perna pra chuchu nas matas de Mangaratiba, com pio de fêmea de macuco e tudo, e não apareceu nada. Nem do lado do Onorino, nem do lado do Antoniel e Adolfo. Mas ninguém afinou; os três foram levando.
Chegaram à serra do Rubião. Sempre piando, subiram a serra. Onorino de um lado, movido pela necessidade; Antoniel e Adolfo do outro, movidos pela vaidade. Ninguém recuou. Ninguém queria sair de mãos vazias. Se o caçador profissional chegasse em seu mocó sem pelo menos um macuquinho filhote, teria que aguentar a filharada esperneando de fome. Se os caçadores esportistas chegassem em casa sem pelo menos um macuquinho filhote, teriam que aguentar uma gozação danada. Nesse embalo, os três iam subindo a serra do Rubião nas matas de Mangaratiba.
Gente de fibra estava ali: subiam assoprando o pio de macuco fêmea pra chamar macuco macho sem perder o fôlego. Nessa toada, chegaram quase ao pico, Onorino de um lado, Antoniel e Adolfo do outro. Estavam próximo quando o Onorino escutou o piado do apito dos dois caçadores. Saudou Ogum, santo guerreiro da floresta, e caprichou no assobio de macuco fêmea.
Os dois caçadores se tocaram, ligaram as antenas, firmaram o pensamento e ouviram o piado que o Onorino soltava. Retumbaram de alegria. Silenciosamente, imaginando ser um macuco dos grandes, os dois se deitaram no chão e foram rastejando pelo mato, rumo ao som que o Onorino assobiava, macuco fêmea chamando macuco macho. De vez em quando, um dos dois dava um assopro no apito de macuco fêmea, esperavam a resposta e avançavam.
Com mais experiência, o Onorino estranhou que a resposta ao seu pio de fêmea chamando macho fosse outro pio de fêmea. Mas, como sempre tinha idéias de jerico, falou consigo mesmo: "Tamos roubado... Até no meio dos bichos tá faltando macho. Vê se pode, macuco fêmea responder chamado de macuco fêmea. Mas já que tá aí, deixa chegar."
Onorino armou a espingarda de chumbo grosso; foi piando e armando a mira na direção em que imaginava que a caça ia aparecer. Não estava enganado. Arrastando-se como cobra, Antoniel e Adolfo foram se chegando. E, aí, não prestou. O ouvido apurado do Onorino escutou o barulho de galho quebrando; escutou o mato espalhando pelo movimento dos corpos dos outros dois caçadores e se assombrou. Pelo esparramo, imaginou que uma jaguatirica se aproximava. Não fez questão de conferir. Deu no gatilho e mandou bala.
Onorino acertou em cheio nos dois caçadores. Adolfo foi direto falar com Deus. Antoniel, mais feliz, foi guindado para um hospital, todo chamuscado. Onorino vai ter que gastar muita saliva pra rachar essa mumunha, até se conformar que não tem mais macuco nas matas de Mangaratiba. O homem acabou com a ave. E, pelo jeito, pra se divertirem, os homens vão se acabar entre si.

Plínio Marcos

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