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Era noite
de Natal! Tudo lá fora eram alegrias; fogos espouçavam no ar
iluminando a noite; sinos badalavam anunciando o nascimento de Cristo
Salvador; ... sussurros de vozes, em confraterniza-ção. chegados do
corredores, lembravam a presença do espírito natalino. Ainda atordoado
depois do desastre, o palhaço Piolim tentava lembra-se do que acontecera;
e pouco a pouco, lentamente, sua memória foi reagindo; então lembrou
a última apresentação do circo numa cidade vizinha, a volta de carro,
depois do espetáculo, a derrapagem, o capotamento, o grito da esposa,
dentro da madrugada, o choro do filho, depois o silêncio...
As paredes brancas, um vulto de uniforme, que entrava e saia do quarto,
o cheiro forte de remédios, não deixavam dúvidas de que ele estava num
hospital. Até que ponto estava ferido, não tinha a menor idéia, já que
estava sob o efeito de fortes soníferos. Mas, naquele momento, não pensava
nele próprio, mas na família, no que tinha acontecido com ela. Grossas
lágrimas lhe desceram do rosto, manchando a maquiagem de palhaço, que
ainda tinha nas faces; chorando, o velho palhaço se lembrou de que era
noite de Natal. E pensou consigo mesmo que ele, que era a alegria das
crianças da cidade, que tudo fazia para vê-las felizes, não merecia,
justamente numa noite de Natal, ver a sua felicidade destruída. E pensou
no Cristo Menino, tão menino quanto as crianças de sua cidadezinha,
tão menino quanto o seu filho...
De repente, como num milagre, sentiu que lhe voltavam as forças; já
sentia os braços, a cabeça já não doía, as pernas começavam a ter movimentos.
Pensou em levantar-se e rezar, mas se lem-brou de que nunca aprendera
a rezar. Mas tinha que rezar, para que o milagre que estava acontecendo
com ele, acontecesse também com a sua mulher e com seu filho. Tomando
de todas forças, sentou-se na cama; pegou seu estojo de maquiagem e
se preparou, como se fora para entrar no picadeiro. Estava só no quarto.
Olhando as paredes viu um retrato do Menino Deus. E foi para ele, rindo
e chorando que o velho palhaço fez o espetáculo. Cambalhotas, trejeitos,
piruetas, tudo era feito por Piolim para agradar o menino Deus. Risos
e lágrimas se misturavam durante a apresentação, pois ele estava rezando
da única maneira que sabia.
E então a porta do quarto se abriu; um médico e uma enfermeira, sorridentes,
esperavam um minuto até que o espetáculo acabasse. Depois disso, lhe
deram a notícia: "sua mulher e seu filho estão salvos; amanhã já podem
ir todos para casa, comemorar o dia de Natal". E o velho palhaço, ainda
em lágrimas caminhou até o retrato do menino Deus e o beijou. Afinal,
ele gostara do espetáculo.
(by
Jorge Lyra)
colaboração:Nil

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