O PALHAÇO TEM ALMA?

o palhaço tem alma...

Dentro deste panorama de revisão da obra dramatúrgica de Plínio Marcos, estreou em Santos, no Teatro Rosinha Mastrângelo, o espetáculo "A Balada de um Palhaço", com direção de Tanah Corrêa. Elenco composto por Márcio Rosário, Orleyd Faya e Georgia Piacentini. Cenários de Orlando Faya e figurinos de Egbert Mesquita e Tami Maekawa. A linha musical original leva a assinatura de Léo Lamma.
É inegável que o conjunto de obras de Plínio, tenha a finalidade de debater à exaustão vários problemas que se mantém insolúveis em nossa sociedade. As relações entre capital e trabalho, opressor e oprimido, apadrinhados e deserdados da sorte, entre outros.
Em "A Balada de um Palhaço", a coisa não é diferente, muito embora se trate de uma de suas obras mais poéticas. O debate entre Bobo Plin (Orleyd Faya), iluminado pela visão de uma cigana (Geórgia Piacentini) que lhe aponta novos caminhos, e, Menelão (Márcio Rosário), que só pensa nos lucros e em escapar da falência explorando o trabalho de Bobo Plin.
Bobo Plin é uma personagem que carrega em seu contexto a universalidade, quer seja masculina ou feminina, quer seja criança ou adulto, que viaja entre a alegria e a tristeza com a rapidez do pensamento. O debate que trava com Menelão, que só se preocupa com o faturamento que possa garantir sua continuidade miserável, nos mostra um Bobo Plin preocupado na busca de sua felicidade, que ele traduz como busca da própria alma.
E a partir deste debate aparecem as situações tragicômicas de uma sociedade perdida entre o sonho e a realidade, cujos caminhos são estreitados pela falta de oportunidades, pela opressão das classes dominantes, pela perplexidade de não avistar uma luz no fim do túnel. Nele surgem os contraditórios da violência e do consumismo a que se entregou a espécie humana.
Bobo Plin mantém as esperanças dessa luz no fim do túnel, num tempo onde o homem seja parceiro do próprio homem, na luta comum pela igualdade e justiça social. A direção de Tanah Corrêa conduz o espectador ao pleno entendimento da proposta do autor, nunca se sobrepondo ao texto, mas fornecendo os encaminhamentos e detalhes para essa perfeita compreensão. Tem a lucidez que falta a muitos encenadores, que na ânsia de "aparecer", terminam por transformar seus espetáculos em alegorias de quinta categoria. É claro na proposta e em sua execução.
Os desempenhos de Márcio Rosário, Orleyd Faya e Georgia Piacentini, seguem a direção. Suas preocupações não se distanciam do dever maior do teatro, que é o de proporcionar aos espectadores o material necessário à reflexão. E fazem muito bem o seu trabalho. Ator que se preza, coloca-se sempre, como veículo do texto, da idéia, do espetáculo como um todo. Merecem os elogios pelo desempenho e pelo fato de se disporem a trabalhar um texto não comercial, de um autor até hoje visto com reservas pela elite dominante.

"Será sempre em praças sem liberdade,
debaixo de céu sem estrelas,
em jardins sem flores,
nas margens de córregos por onde escoa a merda,
que devo armar minha poesia?

Cenários e figurinos completam mais este belo trabalho de Tanah Corrêa, sobre uma obra de Plínio Marcos. Seguem uma linha calcada na proposta brechtiana, onde a cenografia e os figurinos devem servir ao espetáculo e, nunca, sobrepor-se a ele. Orlando Faya, Egbert Mesquita e Tami Maekawa, se mostram como belas revelações para a cena teatral paulistana. A linha musical de Leo Lamma, mantém o espetáculo envolto no clima das colocações e dos debates proporcionados por Bobo Plin e Menelão.
Em cartaz de quinta a domingo no Teatro Plínio Marcos, Rua Clélia, 33 - Shopping Pompéia Nobre, São Paulo, "A Balada de um Palhaço" é um espetáculo que deve e merece ser apreciado pelos amantes do bom teatro.

by: Carlos Pinto
Jornalista

10/09/2001

 

 

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