ÓPERA BUFA NO PLANALTO"

 

 

 

 

 

É por demais conhecido que grande parte da obra teatral de Bertolt Brecht, é oriunda de adaptações de outras obras de autores famosos. Um de seus textos de grande sucesso, "A ópera dos três vinténs", na verdade é uma adaptação de "A ópera do mendigo", de John Gay, onde Brecht satirizava o gênero da época e levava o espectador ao submundo de Londres.
Essa divertida comédia, que de certo tinha sua tendência social, nas mãos de Brecht se transforma em uma sátira ao mesmo tempo virulenta e provocadora. Ele não se contenta em exagerar as proporções e acentuar os absurdos. A cena do casamento de Macheath e Polly, é celebrada em uma estrebaria vazia que um bando de ladrões enchem de mobília roubada, onde até o chefe de polícia toma parte na celebração.
No momento de fugir de casa, após o casamento, Macheath deixa instruções pormenorizadas a Polly sobre a maneira de conduzir o negócio, tal como faria um banqueiro ou um grande industrial. Nesta cena, os bandidos e as prostitutas comentam suas próprias profissões em termos semelhantes aos utilizados por um correto homem de negócios, razão pela qual Polly não conseguia entender a oposição que seus pais faziam a tal casamento.
Para convencê-los, Polly admitia que Macheath não era nenhum bonitão, mas tinha do que viver. Oferecia-lhe uma vida decente, pois era um arrombador de primeira e, alem disso, um assaltante de grande experiência e ampla visão.
Vivesse hoje, Brecht teria farto material para trabalhar uma ópera bufa no planalto. Este "casamento" do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto com o sr. Eduardo Jorge, ex-Secretário Geral da Presidência da República, é uma "festa" digna de um texto brechtiano. Essas ligações perigosas do alto escalão governamental, com um cidadão, hoje foragido da justiça por acusações do desvio de R$ 169,5 milhões de reais das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo, precisam ser melhor contadas.
As explicações dadas pelo sr. Eduardo Jorge sobre a origem dos 117 telefonemas recebidos do ex-juiz, enquanto Secretário Geral da Presidência, são no mínimo ridículas. Se o Palácio do Planalto se guiava pela orientação do sr. Nicolau para a nomeação de juizes do Tribunal que presidia, no mínimo tinha livre acesso para outras transações. Tanto é, que deu no que deu.
E novos ingredientes vão sendo introduzidos nessa santa aliança, onde o personagem Luiz Estevão, também tem um grande papel nesta ópera bufa gerada pelo tucanato. Através de suas investigações, o Ministério Público está de posse de uma relação de sete ex-assessores do sr. Eduardo Jorge, que ultimamente estavam lotados no gabinete do ex-Senador Luiz Estevão. Para os membros do MP, tal fato revela uma estreita aliança entre os dois personagens desta ópera bufa.
Querem os integrantes do MP, agora, saber se esta ligação suplantou o plano pessoal e se embrenhou no pantanal dos negócios geridos pelo ex-Senador. Para complicar mais o enredo, entre os dois aparece o personagem central do escândalo do desvio de verbas do Fórum Trabalhista de São Paulo, o ex-juiz Nicolau "Lalau" dos Santos Neto.
Como em matéria de impunidade, tudo é possível neste país, talvez o desfecho desta ópera bufa se desenrole bem ao gosto do espírito satírico de Brecht. A exemplo da "Ópera dos três vinténs", onde o chefe de polícia fazia de tudo para salvar Macheat, o ladrão arrombador, em dado momento ele é apanhado de surpresa pelas ameaças de Peachum de colocar um exército de mendigos para bagunçar a coroação da rainha.
Sem saber mais o que fazer, o chefe de polícia manda prender Macheath para ser enforcado. Mas Brecht encontra uma esdrúxula saída para salvar o gatuno de ficar pendurado numa corda. No último instante surge um mensageiro da rainha trazendo a clemência real para o condenado, nomeando-o gentil-homem e, ainda, presenteando-o com um castelo e uma renda perpétua.
Alguém duvida deste desfecho para o caso desta ópera bufa no Planalto?

CARLOS PINTO
15/07/2000
Webmaster: Bethynha

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Olha o Lalau ae gente  ....

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