O Telepata
Trabalhávamos num show de um cabaré
escroto na zona portuária de Santos. Eu, um contador de histórias -parangolé,
bico-de-pato, rosca-empanada, quás,quás,quás, bolacha, cachaça, cocada, ou vai-ou-racha,
ou quebra-a-tampa-da-caixa. Ele, um telepata. Prá nós dois, aquela vida era
um martírio. Imundicie!
Por que a gente continuava lá? Sei não. Talvez prá cumprir com grandeza a miséria
que nos coube por destino. O que sei é que, quando acabava minha parte, eu ia
prum boteco próximo e bebia todas -até chumbo derretido, se servissem. Logo
depois vinha o telepata. Estava sempre pior do que eu. Já chegava se lamentando,
não fazia cerimônia. Tudo o que dizia vinha do fundo da alma. Bebia, bebia e
ia se abrindo.
-Pois é, palhaço. Eu sou telepata. Juro que sou. Eu recebo mensagens. Podes
crer.
Eu ficava quieto. Respeitava a dor do bruto, que era grande. E, depois, a gente
aprende que cada louco tem a sua mania. Aquele ali queria ser telepata. Ficava
longo tempo em silêncio; a expressão ia mudando, passava da tristeza à revolta.
Às vezes, afivelava na cara uma máscara de conformismo e de repente se alterava
e explodia.
-Que merda! Que merda! Sou um telepata! Devia ser respeitado, incentivado a
desenvolver esse dom. Mas aqui nesta merda só recebo esculacho. Ninguém dá valor.
Noite após noite, ele vestia um smoking velho e sujo, uma capa roxa brilhante,
um turbante oriental com uma pedra vermelha no meio da testa, e entrava na pista
da espelunca acompanhado de sua parceira, Helen Morena, que usava um biquini
dourado. Ela colocava uma venda preta nos olhos dele e ia pro meio do público.
Aí começava a folia. Passavam a mão na bunda da pobre mulher, davam beliscão
nas coxas. Ela estrilava, o público ria. E provocava:
-Adivinha o que eu quero, gostosona...
-E eu? Não é difícil, nem precisa perguntar pro otário...
Era um massacre. Tinha noite que eles não conseguiam completar o número. O telepata
xingava o público e saia do palco sob vaias. Para Helen era ainda mais difícil.
Os cafajestes a agarravam e, se os seguranças não agissem rápido, com certeza
ela seria violentada. Para o dono do cabaré um grande sucesso. Para o telepata,
a suprema humilhação.
Só mesmo indo direto pro boteco. E dá-lhe desabafo:
-Palhaço, este é um país de filhos-da-puta. Em qualquer lugar do mundo...olha,
não é conversa... No tempo da guerra, teve um tal de Zener que inventou um baralho
para treinar telepatas. Simples, muito simples: uma estrela, uma esfera, um
quadrado, uma cruz, umas ondas... E, lá na escola, os aprendizes de telepata
eram treinados com as maiores regalias: bolsa de estudo, comida todo dia...
Mole... Tem até hoje essa escola só pra desenvolver o talento do aprendiz de
telepata. Não é como aqui, que um sujeito como eu é desprezado. Pombas, tenho
que viver enganando! Um cara com tanta aptidão ser forçado a abandonar sua arte,
sua magia, e virar um charlatão, obrigado a depender de uma puta como essa Helen
Morena. Isso me assusta, palhaço. Estou na mão da putona. Se ela quiser me sacanear,
é só inverter a combinação... aí não acerto nada.
E caía num estado de depressão absoluta. Ficava bebendo, quieto. Eu ia prá lá
e prá cá, levando um papo com uma mulher, com outra, com uns amigos, contando
umas piadas... O pessoal ria, meu humor melhorava. Mas de repente o telepata
me chamava:
-Palhaço, chega mais.
Eu ficava de saco cheio de ter que aturar a figura. Mas ia, era colega -sempre
fui solidário. Toda hora ele vinha com uma novidade.
-Olha, palhaço... Sabe que no tempo da guerra a marinha dos Estados Unidos fez
uma experiência de entortar o patuá? Pegaram dois telepatas: trancaram um no
porão de um submarino e o outro num quartel, durante três meses. Deram um baralho
Zener para cada um. Todos os dias, numa hora combinada, o telepata que estava
na terra passava uma mensagem pro que estava no fundo do mar. Era só a mentalização
de uma carta -uma estrela, uma esfera, um quadrado, uma cruz, umas ondas...
Eles iam marcando o dia, pra conferirem a quantidade de acertos no final da
experiência... Tá vendo como as maiores potências do mundo se ligam em telepatia?
Aqui, um cara como eu... tô aí, jogado...
-Essa experiência americana deu certo? -dei trela.
-Sei lá, palhaço, eles enrustem o resultado. Os russos tinham porradas de espiões...
americano não é bobo de ficar revelando segredos tão importantes. Os russos
também faziam experiências do tipo, mas aqui, ó, que revelaram alguma coisa!
É isso, palhaço, a telepatia é a comunicação do futuro. Quando os ETs chegarem
à Terra...
-Corta essa, corta! -protestei. Não vai ser um otário de cabaré de beira de
cais...
-Porra, palhaço... Deixa. Esquece. Eu tenho é que falar comigo mesmo. Só pinta
idiota na parada.
Eu tinha vontade de mandar o bruto prá... Mas dava desconto. Ele resmungava
um pouco, pagava a conta e ia embora.
Numa noite, ele chegou no boteco pior do que nunca. Pediu um vinho, uma coisa
ruim que quando caía no mármore manchava. Foi bebendo e xingando:
-Aquela vagabunda! Aquela porca da Helen Morena! Vagabunda, aprontou comigo!
-O que aconteceu? -perguntei por perguntar.
-O que aconteceu, palhaço? Ela me traiu!
-Mas desde quando você liga prá mulher?
-Não ligo. E se ligasse, não ia ser pruma vagabunda dessa. Ela me traiu passando
o nosso número prum cafetãozinho de puta pobre. A ordinária e o canalha já estão
arrumando um cabaré pá se apresentarem: O pilantra até mandou fazer uma roupa
igual à minha. Um chucro e uma vagabunda...
-Mas nunca vão tirar o seu lugar, você sabe o que faz -eu quis consolar.
-Isso é verdade, palhaço. Juro, eu sou telepata. Não toda hora... mas de repente...
minha mente... Não é quando eu quero... mas de repente... Agora o sacana e a
piranha vão usar meus truques. Até eu arrumar uma mulher nova, ensinar... Não,
palhaço, não agüento mais... Estou velho: sessenta e cinco anos, quarenta de
ofício. Não agüento mais ensaiar outra mulher... que logo vai me deixar. Que
merda de vida, que merda!
Saí de perto. Ele nem notou. Bebeu até o último gole daquele vinho nojento e
foi embora.
No dia seguinte, o rapaz do hoteleco onde ele morava chamou a polícia e avisou
a gente: o telepata tomou guaraná com formicida. Deixou um bilhete: "A Helen
Morena me abandonou. Bom pra ela. Mas eu não tenho mais saco pra ficar ensaiando,
ensaiando, ensaiando outra puta pro meu número de telepatia. Adeus."
Plínio Marcos
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