O RETROCESSO

 

Filho da prepotência e, oriundo das trevas em que por vezes somos mergulhados, o casuísmo é o pai das grandes desgraças do povo brasileiro, refletidas num contingente de aproximadamente 44 milhões que vivem na linha de miséria. Responsável direto também, pelo descalabro alcançado pelo ensino público do país, refletido em recente pesquisa realizada em vários países, onde nos sobrou o pouco honroso último lugar.
Nascido no período da geopolítica professada pelo mestre Golbery do Couto e Silva, o casuísmo ganhou corpo e aliados, alguns dos quais sobrevivem até hoje, embora haja o entendimento de que vivemos em pleno estado democrático. Na vigência dos ditames oriundos da referida geopolítica golberyana, nasceu a figura escamosa do Senador biônico, cargo ocupado por alguns serviçais do regime de então.
Eis que se não quando, o Congresso Nacional recebe das mãos do deputado José Carlos Martinez, do PTB paranaense, e acionista majoritário de uma rede de televisão, um projeto de lei onde se pretende a reedição da figura escamosa do Senador biônico, travestido de Senador vitalício. Lá se vão mais de vinte anos em que a geopolítica golberyana foi afastada do cenário político nacional. Mas sempre sobram as viúvas, inconsoláveis, sempre predispostas e ávidas em agradar para poder praticar o dando é que se recebe.
Na falta do que fazer, sem a competência para gerar projetos de lei que beneficiem a sociedade brasileira, que possam minimizar as distâncias sociais, que concretizem uma justiça verdadeira, o senhor Martinez, do alto do seu servilismo "patriótico", resolveu reinventar o referido casuísmo. E já conta com afoitos adeptos, como é o caso do deputado Artur Virgilio, hoje ocupante de cargo ministerial. Parece até o antigo senado romano, onde seus membros, ao completarem determinada faixa etária, passavam a ser vitalícios, com todas as benesses do cargo.
Espero que o Presidente Fernando Henrique não morda esta isca. Apesar da distância ideológica que nos separa, não gostaria de vê-lo encerrar a carreira política, investido em um cargo que, no passado, ajudou a combater. Seria desprestigioso demais para sua folha corrida, ocupar um cargo idêntico ao do General Pinochet, em razão do qual os exilados brasileiros tiveram que trocar Santiago por Paris. Espero também, que apesar do ano eleitoral, deputados e senadores, que pretendam suas reeleições, coloquem uma pá de cal nessa pretensão absurda do senhor Martinez. Vitorioso nessa questão, o referido deputado poderá nos brindar no futuro, com um novo projeto de lei onde a proposta fundamental seja a do Presidente vitalício, nos moldes do que existia do Haiti, nos tempos do senhor Baby Doc. E aí, sim, seremos então, a mais completa republiqueta caribenha.
Como diz um militar amigo meu, nacionalista de boa cepa e cidadão muito bem informado, tem alguns políticos brasileiros que, com o passar dos anos, criam o entendimento de que viraram deuses e, daí para a frente, cometem as maiores excrescências em nome desse endeusamento que somente suas cabeças "coroadas", conseguem objetivar. Para nós, simples mortais, resta apenas reagir enquanto é tempo.

by: Carlos Pinto
09/01/2002

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