O BEXIGA, ATRAVÉS DA HISTÓRIA DE SEUS BAMBAS

Ai da aldeia que esquecer os seus grandes vultos populares. Por certo se esgotará por falta de seiva em suas raízes.
O Bexiga, a Bela Vista, é imortal e resiste aos ataques do progresso, justamente porque curte as histórias dos seus bambas, que fizeram e aconteceram naquele pedaço de chão de terra firme. Gato, Pula-Pula, Pé Rachado, Guaribe, Nego Braço, Chuli, Jamburá, Marmelada, Pato Nagua e outros provaram seus valores em meio de batalhas e ganharam destaque honroso na boca do povão que nas esquinas, nos cortiços, nos porões, nos botecos reverenciam nomes e contam suas façanhas.
Quem me dera um dia escancarar a vida de cada um desses senhores que ocupam lugar destacado na galeria onde só se entra por merecimento e bravura. Hoje, no entanto, me é dado tempo e espaço apenas para um exemplo e eu escolho Pato Nagua, valente no braço e nas armas, artista enorme, apitador de samba.

PATO NAGUA

Pato Nagua dançava samba na aba do chapéu. Pato Nagua ficava em cima do Viaduto do Chá apitando e comandava o glorioso cordão alvinegro do Bexiga, o Vai-Vai (hoje escola de samba), desfilando pelo Vale do Anhangabaú. Pato Nagua ocupou com orgulho o cargo de chefe da torcida uniformizada do Corinthians. Pato Nagua amou e foi amado por muitas mulheres. E foi indo atrás de um rabo de saia que ele se perdeu. Uma madrugada, depois de um samba duro, no porão do Bexiga, onde crioulo de mais de metro e setenta tinha que dançar dobrado em cima da dama pra não bater com a testa nas vigas, onde depois que a poeira subia só se sabia que tinha pagode pelo ronco da cuíca e o choro do cavaquinho, Pato Nagua foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano Paulista. Longe paca. E amanheceu boiando numa lagoa. Estava comido de peixe e de bala. Como foi, como não foi, ninguém sabe. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga na hora da Ave Maria. E ali nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povo lesado que transa pelos estreitos, escamosos e encardidos atalhos do roçado do Bom Deus chorou a morte do seu artista. E o Geraldão Filme, legíitimo poeta do povo, chorou por todos:

"Silêncio
O Sambista está dormindo
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escolas
Eu peço silêncio de um minuto
O Bexiga está de luto
O apito de Pato Nagua emudeceu
Partiu
Não tem placa de bronze
Não fica na história
Artista do povo morre sem glória
Depois de tanta alegria
Que ele nos deu
Assim o caso repete de novo
Sambista de rua, artista do povo
E é mais um que foi
Sem dizer adeus."

by: Plínio Marcos
(26.01.1974)
Webmaster: Bethynha

 

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