Outra vez estás parada e muda
Singular e surda, limpa e confiante.
Vagamente adormecida, despertando unicamente para mim.
Outro quarto, outra noite, mais um sábado...
E o desejo do meu peito te faz ver a realidade.
Paredes e camas, janela delimitada
Por um gesto de abandono que emanou do teu sorriso.
Por que te enganas tanto ?
Por que estás cegando o teu olhar ?
Hoje, enquanto fores gente serás tanto amor...
Mas amanhã......
Amanhã te será outro, e mais outro,
Até cansares de te enganar.
Qualquer um te vai fazer sentir humana
E depois, minutos de vazio e solidão.
Tão pequena e temerosa
...Te atormentas ante a noite tão sem fim.
Outro que te paga e rouba
Outro que te rouba e foge
Outro que bebeu teu corpo
Outro que bebeu teu gosto
Outro que te fere e corre
Outro que te come e cospe
Outro que te mente e marca
Outro que te marca e paga
Outro, ainda, que te esmaga no peso do corpo nu.
Outros fios de cabelo,
Travesseiros, beijos, mentiras,
Tempestades, falsas chuvas,
Até cansares de te enganar.....

(by Carlos Pinto.)

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