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A proposta que o vereador José
Lascane está apresentando na Câmara Municipal de Santos, relativa à implantação
de cursos profissionalizantes nos vários segmentos das artes cênicas,
chega em boa hora. Primeiro, porque a cidade já merece esses cursos
há vários anos, em função do potencial demonstrado ao longo do tempo,
por vários de seus filhos. Seria até exaustivo elencar aqui, todos aqueles
que foram obrigados a deixar a cidade para cursar arte dramática na Escola
de Comunicações e Artes ou na Escola de Arte Dramática, ambas da USP.
Segundo, porque se abrirão novas vagas no mercado de trabalho para
muitos santistas, que hoje lecionam no setor em outras cidades. Teriam
a oportunidade de passar aos que hoje pretendem se iniciar na profissão,
tudo aquilo que aprenderam ao longo de suas militâncias no teatro profissional,
ou mesmo, nos cursos que freqüentaram.
Terceiro, por que seria uma oportunidade também para alguns candidatos
que abusam da dramaticidade em seus programas eleitorais, a ponto de,
preteridos pelas urnas, obterem uma oportunidade para o desenvolvimento
dessa veia artística, que consagrou no passado e, ainda consagra hoje,
tantos filhos desta terra que se dedicam às artes cênicas.
De uma certa forma em alguns casos, existe muito de ator e atriz em determinados
militantes da cena política. De tal maneira essa semelhança se acentua
em determinados programas, que para mim, incorrigível telespectador do
horário eleitoral, chego a ficar pasmo diante do talento nato demonstrado.
E penso comigo: que pena, escolheu a profissão errada.
Com a proposta ora em curso, e espero que venha a ser adotada pelo Prefeito
Beto Mansur, esses militantes da cena política teriam a oportunidade de
aprender coisas interessantes sobre tais semelhanças a que acima me refiro.
Por exemplo: conta a história do teatro universal que certa vez, Sólon,
foi assistir a uma representação de Téspis, a quem se atribui a invenção
genial que possibilitaria o trânsito da primeira forma lírica e narrativa,
para uma tentativa de representação dramática.
Esse encontro nos é relatado por Plutarco da seguinte maneira: "Sólon
foi ouvir Téspis, o qual, de acordo com o costume dos antigos autores,
representava suas próprias obras. No fim da representação Sólon chamou
Téspis e perguntou-lhe se ele não tinha vergonha de produzir publicamente
tamanhas mentiras. Respondeu-lhe Téspis, que não havia mal algum em suas
palavras e nem mesmo em sua conduta, porquanto se tratava apenas de um
jogo. Sim, respondeu Sólon, mas se aceitamos e aprovamos esse jogo, vamos
encontrá-lo transformado em realidade nos nossos contratos."
Verdadeiro ou não este diálogo, vale como um depoimento sobre a existência
real de Téspis e, sobretudo, como tradução de uma atitude de desconfiança
que iria se repetir por séculos, em relação ao teatro e aos seus intérpretes
diretos : os atores. Este preconceito gerado através dos tempos, propiciou
a degradação da palavra "ator", que significou na sua origem, "aquele
que responde", ou "aquele que explica" ou "aquele que age", e que foi
se transformando com o tempo naquele que age ou responde ou explica, ao
invés daquele que efetivamente sente ou pensa. E a palavra ator, que em
grego é "ithobios", ganhou a nomenclatura vulgar de "hypokrites", que
posteriormente veio a converter-se no atualíssimo "hipócrita", que Moliére
viria a imortalizar em seu "Tartufo".
Semelhanças a parte, e levando em conta o distanciamento que a sociedade
começa a manter com relação a determinados políticos, a quem, em alguns
casos, também classificam de hipócritas, deixo uma sugestão. Talvez alguns
possam ser aproveitados nos cursos idealizados pelo Vereador Lascane,
que a seu término, bem poderiam encenar um musical nos moldes do " Não
chores por mim, Argentina", tendo como tema principal, um texto baseado
nos problemas de Santos, com atores e atrizes derramando lágrimas de crocodilo
sobre a platéia. Mas, por favor, me poupem de assisti-lo.
by: CARLOS
PINTO
23/09/2000
Webmaster: Bethynha

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