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Milton Santos 
Amigos, morreu o professor
Milton Santos e pensei imediatamente em meus amigos de infância, que infelizmente
também já partiram, João Pelé e Bacalhau. Meninos, corríamos atrás da
bola na Vila Leão, soltando papagaio, rodando pião, atirando pedras nos
pardais. João e Bacalhau eram netos de dona Ana e "seu" Agenor, que vendia
amendoim na esquina da praça Coronel Fernando Prestes. Vocês devem se
lembrar de "seu" Agenor. Quem viveu na Vila lembra do cheiro de amendoin
torrado e das coleções de figurinhas de Dona Ana.
Por que fiz a relação? Porque meus amigos eram negros. E seguiram o destino
de muitos negros no mundo dos brancos :a exclusão. Não tiveram oportunidades,
ficaram à margem, foram para a bebida. Morreram cedo.
O Professor Milton Santos era negro. Conseguiu chegar onde - exceção a
Pelé- nenhum outro negro chegou. E não jogava futebol. Foi o único brasileiro
a ganhar o prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, que corresponde
ao Prêmio Nobel na área da Geografia.
Bacalhau e João Pelé morreram meninos na ingenuidade, apesar de adultos,
e nada sabiam de política e geografia. Estavam restritos aos limites da
Vila Leão, do futebol descalço, da fila do INPS.
O professor Milton Santos morreu. Os jornais trazem manchetes em sua homenagem:
"O desbravador do mundo atual", diz o Jornal do Brasil, e continua : "Morre
aos 75 anos o geógrafo que se tornou referência por pensar de forma original
a globalização e a exclusão social". " Um dos maiores intelectuais brasileiros",
é a manchete d'O Globo, e reproduz o que dizia o mestre : " de um certo
ângulo vejo uma globalização da qual não gosto. Como está aí é um fenômeno
perverso. Beneficia poucas pessoas e maltrata a maioria da Humanidade.
Essa história de globalização, aldeia global, cidadão do mundo é vocabulário
enganoso".
Essas palavras ficam martelando minha cabeça.
Eu, o menino branco. Meu avô italiano, João, trabalhando a meia nas terras
do fazendeiro negro. A igrejinha de Nho João de Camargo(o santo negro)
no caminho da roça de meu avô. O sr. Achiles Campolim, o Quiló, o fazendeiro
que cedia as terras para meu avô trabalhar. Minha convivência com os meninos
negros na Vila Leão. Toninho, Ditinho, Neno. Nossos sonhos de ir para
o Rio de Janeiro.
As escolas de samba da Vila Leão. O Clube dos 30. O 28 de Setembro!
Lá do outro lado da rua os lamentos da música evangélica tocados
pela família Bedenego. Os metais em brasa na melancolia do outro lado
da rua.
Não me lembro de piadas sobre negros na minha infância. Éramos a minoria.
Tinha também duas famílias japonesas. Alguém se esqueceu do bar do Kurucaba?
A primeira vez que ouvi falar do movimento negro foi através do Miroldo,
que num carnaval de 67, ou 68, vestia um chapéu de palha onde estava escrito:
"black power".
A pobreza não escolhe apenas os negros. Lembro de muitos amigos brancos
também, que ficaram na poeira da estrada da vida. São as circunstâncias,
as dificuldades de um país de terceiro mundo, injusto, de riqueza mal
distribuida.
Era contra tudo isso que o professor Milton Santos lutava.
Se o amado leitor nunca tinha ouvido falar do mestre, não tem importância.
Era praticamente desconhecido no Brasil. O escritor Luis Fernando Veríssimo
conta que entrando numa livraria para comprar um livro do geógrafo, o
cartunista Jaguar ouviu:-"ah! o Nilton Santos, jogador de futebol?" -"Não!"
- retrucou mostrando a foto do negro elegante, vestindo um terno na capa
de um livro. O vendedor não se deu por perdido e remendou : "claro, esse
é o Djalma Santos".
Não sei se o professor gostava dessas brincadeiras. Certamente devia sofrer
com a ignorância de seu povo sobre a sua condição.
Dizia: "Não sou militante de coisa nenhuma. Essa idéia intelectual, apreendida
com Sartre (filósofo frances), de uma independência total, distanciou-me
de toda a forma de militância."
Mas ao mesmo tempo dizia: "O fato de eu ser negro e a exclusão correspondente
acabam por me conduzir a uma condição de permamente vigília."
Volto a pensar em meus amigos que se foram. Nós, com os pés cascudos de
jogar futebol descalços. Os risos e a alegria parecem explodir nessa tarde
fria tantos anos e distância depois.
Não estou lamentando. Apenas lembrando, fazendo relações. Queria tanto
que meus amigos pudessem ter conhecido o pensamento do professor!
A escritora Marilene Felinto fala do silêncio dos sem-geografia e lembra
de uma conferência do mestre: " ... a um jovem negro que se levantou na
platéia e lhe perguntou em tom militante, o que fazer contra a discriminação
que 'nós', os negros, sofremos nessa sociedade e blablablá, Milton Santos
respondeu, sábio e duro, mas com toda a delicadeza que lhe era peculiar:
estude, trabalhe, busque o seu caminho; nós, negros, precisamos parar
de apenas nos lamentarmos."
João Pelé e Bacalhau eram dois sem geografia. Nem lamentar lamentavam.
Estou aqui pensando nos meus dois amigos que se foram, e na distância
que liga essas trajetórias. Eles não conseguiram ultrapassar os limites
da Vila Leão. Milton Santos ganhou o mundo. Juntamo-nos nessas palavras
lançadas num jornal do interior para provar que tudo é um milagre,como
dizia Einstein e que tudo é relativo como dizem as sábias palavras inscritas
em nosso cemitério da Saudade: "Eu fui o que tu és, tu serás o que eu
sou."
Estive uma vez numa palestra do professor aqui no Rio de Janeiro. Minha
mulher e eu éramos os únicos brancos na platéia.
Analisando um quebra- quebra na USP o professor disse com todas as letras
que "quebrar tudo era muito natural". Pode parecer chocante e radical.
Mas se tivessem chance e discernimento meus amigos Bacalhau e João Pelé
concordariam. Os negros que estavam naquele recinto da Fundação José Bonifácio
há uns tres anos atrás concordaram.
O professor Antonio Candido disse que "Ele representava nas ciências humanas
o que se pode chamar de ala combatente. O que foi Florestan Fernandes
na sociologia ele foi na geografia humana".
Publicou mais de 40 livros, recebeu mais de 20 títulos 'honoris causa'!
Foi professor nas Universidades de Paris, Columbia, Toronto, Dar Assalaam,
na Tanzania. Esteve na Venezuela e no Reino Unido.
Nasceu em Brotas de Macaubas, em 1926, na Chapada Diamantina, no sertão
da Bahia, onde seus pais foram trabalhar como professores primários. Estudou,
seus familiares se esforçaram para que seguisse nos estudos.
Me lembro agora que nunca vi João Pelé e Bacalhau com uniforme de escola.
apenas nos encontravámos nas peladas no meio da rua.
Não sei se acredito muito nisso (desculpe Padre Martini), mas que bom
seria se realmente existisse um Céu, onde os bons se encontrassem para
curtir a Glória eterna!
João Pelé e Bacalhau seriam alunos do professor Milton Santos, fariam
pós graduação, teriam postos importantes, não teriam morrido tão cedo.
Morrido? Mas aí estaríamos de novo na vida terrena, e nesta ninguém tem
colher de chá. Muito menos os pretos.
by: Paulo
Betti (texto recebido por e-mail pelo autor).
"Um homem que
pensa, e que, por isso mesmo, quase sempre se encontra isolado
no seu pensar, deve saber que os chamados obstáculos e
derrotas são a única rota para as possíveis
vitórias, porque as idéias, quando genuínas,
unicamente triunfam após um caminho espinhoso."
Milton Santos
(03/05/1926 - 25/06/2001)
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