Crônicas do Menestrel
(Por Fábio Luiz)

Menestrel...

Ah! Se fosse eu!

- É a febre do grilo! - Exclamou Arnon, vigia noturno do prédio onde resido. Vigia dedicado é verdade. Dependendo do adiantado da hora o encontramos em uma profunda concentração em vigiar os recônditos mais profundos do ser, ou seja, ele despenca em um sono de dar gosto. Como o considero um amigo, já o adverti que não fica bem alguém encontrá-lo dormindo dentro da guarita. Ele entendeu imediatamente minha preocupação. Passou a tirar sua soneca do lado de fora.

Eram quatro horas da matina e eu acabava de entrar no prédio quando Arnon apareceu das sombras com sua cara risonha. Isso lá é jeito de abordar alguém? Quase subo no poste de susto. Após xingá-lo e espancá-lo, finalmente perguntei o que havia acontecido desta feita.


- É a seleção daquele Luxemburro, Fábio! - Dizia ele. E emendou com comentários sobre a atuação desde o técnico até o gândula.

Arnon é assim, figura carimbada e já folclórica da rua. Sempre tem um comentário ou opinião formada sobre qualquer assunto. E coitado de quem tentar sair sem escutar um pouco! Já é detentor de pérolas como a exclamação do início desta crônica. Febre do rato como a do grilo nada mais do que designa algo fora do comum, extraordinário, segundo suas próprias palavras. Evidentemente é um bom exercício imaginarmos um grilo com febre prostrado em uma cama totalmente enfermo.

O Brasil é um paiol de expressões e mais ainda técnicos. Antes de aprendermos a andar temos que saber ao menos o básico sobre futebol, necessário para a vida normal. Arnon é expert, um nível acima de seres mortais. Afinal, já defendeu o vigoroso e glamouroso time do CEO (Centro Esportivo Olho d'águense) como goleiro.

Nome de time bonito, não? Mais lindo ainda é o nome da cidade! Olho d'água das flores. Cidade do interior de Alagoas, terra natal de nosso herói. O nome se deve, de acordo com a lenda local, a uma nascente que formava um pequeno lago com árvores em volta e flores de cores variadas, sendo um lugar de descanso e abastecimento da região.

Como goleiro do CEO, me conta, já defendeu o time em inúmeras decisões e nem sei como não erguem uma estátua para este homem simples e modesto na praça central. Certa feita, o time adversário precisava ganhar com apenas um mísero gol de vantagem e lá estava ele, sim, ele mesmo defendendo a sua área. Sabedores de sua fama, os adversários compraram o juiz que, do alto de sua autoridade, decidiu que o jogo só terminaria quando o time fizesse um gol em Arnon, o que seria a honra máxima.

O jogo foi ferrenho. Chutes para todos os lados. Indaguei, quando obtive uma brecha, qual foi o resultado do jogo.

- Não houve resultado! - Disse. - O jogo foi interrompido após seis horas. Eles bem que tentaram durante outras partidas. Como não faziam gol em mim, cansei e mudei de cidade.
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