Em memória de Plínio Marcos

vc deixou saudades...

 

19 de novembro: há três anos, Plínio Marcos se foi, deixando uma vasta obra na dramaturgia e na literatura brasileiras. Mais do que isso, consolidou-se como referência na luta contra as injustiças sociais e como símbolo da luta pela liberdade de expressão.

Apontado por unanimidade como um dos mais importantes dramaturgos brasileiros, Plínio Marcos teve sua trajetória artística e pessoal pontuada pela ação de governos ditatoriais, sobretudo no período militar; chegou a ser impedido de trabalhar, por 20 anos, em todas as suas profissões ligadas ao ofício de comunicador. Apesar disso, manteve uma produção de altíssimo nível e, em mais de 40 anos de dramaturgia, é um dos raros autores brasileiros capazes de reunir o que se pode definir como uma obra.

Nascido em Santos em 29 de setembro de 1935, Plínio estreou no circo, como o palhaço Frajola. A atividade de escritor, de dramaturgo, foi iniciada com "Barrela", em 1958. O tema, cadeia, foi retomado no monólogo "25 Homens" e em "A Mancha Roxa", que aborda a Aids. A prostituição está presente em "Navalha na Carne" (talvez o texto mais célebre do autor) e "O Abajur Lilás".

A violência policial é o alvo de "Oração para um Pé de Chinelo"; a trajetória de um menino de rua virou "Querô, uma Reportagem Maldita", romance dos anos 70 que recebeu versão dramatúrgica. Também nos anos 70 foram publicadas suas crônicas num volume, "Histórias das Quebradas do Mundaréu".

A questão do trabalho e seu oposto, o desemprego, é contundente em "Homens de Papel", "Quando as Máquinas Param" e "Dois Perdidos Numa Noite Suja" (de 1966, tem montagens na França, na Alemanha, nos Estados Unidos, em Cuba, e é editada em alemão, inglês e francês).

As origens circenses são sentidas em "O Homem do Caminho", "Balada de um Palhaço" e "O Assassinato do Anão do Caralho Grande", outro romance que virou peça, ambos publicados num único volume em 1996. Este foi o ano de lançamento, também, das crônicas em tom de memórias "Figurinha Difícil " .

Malandros, prostitutas e desvalidos são uma constante na obra, mas a galeria de personagens do autor é diversificada. O universo pequeno-burguês é o pano de fundo em "Sob o Signo da Discoteca", "A Dança Final" e "O Bote da Loba", inédita. A religiosidade está presente em "Madame Blavastsky", "Jesus Homem" e "Balbina de Iãnsa".

O próprio Plínio cuidou de editar seus textos (hoje esgotados). Se encarregou também de vendê-los nos bares, nas universidades, nas portas dos teatros. Era sempre encontrado no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, na rua Teodoro Baima, 94.

Ali, na confluência entre Ipiranga e Consolação, atores e músicos o homenageiam todos os anos com um evento reunindo trechos de peças do autor e um show com a participação de sambistas.

Leitura de trechos de peças do autor, como "Balada de um Palhaço", "Homens de Papel" e "Quando as Máquinas Param". E, como não podia deixar de ser, já que a iniciativa é sempre de Carlos Costa (o Carlão do Carnaval, líder da Banda Redonda). Há também show musical ao ar livre com a participação de sambistas como, Germano Mathias, João Pedro, Silvio Modesto, Borba, Aldo Bueno e Odair e sua banda, amigos de fé do Plínio.

Plínio Marcos, o rebelde que viveu seu próprio discurso, merece todas as homenagens que pudermos lhe render.

Vera Artaxo
(19/11/2002)
Webmaster: Bethynha

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