O MEDO É BROCA

o medo é broca ;-)

Podes crer, meu lorde, a situação está tão medonha que até nego de patuá forte e que já provou seu valor no meio de mil e uma batalhas anda assombrado e, mesmo se fiando na Virgem, corre o mais que pode na vã esperança de evitar os pererecos. Eu disse na vã esperança de evitar os pererecos, e disse bem. Porque, na verdade, não ta dando pra ninguém escapar dos pampeiros que acontecem diariamente nas quebradas do mundaréu e até mesmo no centro da cidade, que ta sempre apinhada de gente e de policia, mas que nem por isso dá conta de manter a paz.Os bandidos, em desespero, fazem e acontecem, barbarizam, as vítimas, dando a impressão de que não estão contando com o azar. Atacam na força bruta, trazem sempre a mão grande, armas de grosso calibre e são dedos-moles. Com facilidade, apagam quem ciscar na frente e, às vezes, não é nem preciso ciscar. O caso do assalto do ônibus está aí mesmo pra não deixar ninguém desmentir. Foi um troço cabuloso. Os ladrões agiram com uma maldade espantosa. E por essas e outras o povão que berra da geral sem nunca influir no resultado fica cada vez mais aflito. Psicólogos notórios, estudiosos da cachola humana, sábios doutores tentam analisar os fatos que lhes batem na fuça, derramam quás-quás-quás comprido, porém ( e sempre tem um porém), continua tudo na mesma. Na realidade, com nego se vendo a toda hora no papo da aranha diante da vida que anda custando os olhos da cara, com uma multidão trampando do canto do galo até o pio do sereno pra faturar salário, dá bobeira em uns e outros. Mas, deixa isso de lado. O que quero contar aqui e o que pesa na balança é que a negada anda cabreira e se cobrindo o mais que pode pra não entrar em fria. E o caso que se deu no fim da roda de samba dos Unidos da Vila Maria e que envolveu um jornalista e os compositores Talismã e Toniquinho serve bem pra ilustrar esse babado.
Às primeiras horas da matina de domingo, quando encerrou-se o pagode dos Unidos da Vila Maria, o jornalista que é o diretor da escola, o Talismã, e o Toniquinho, batuqueiros de primeiro time, retumbando com o sucesso da festa, do chim-chim de galinha ( ou xim-xim, sei lá como se escreve o nome desse gordurame), resolveram pegar um táxi pro centro. Não foi fácil. Quando os motoristas viam um branco e dois crioulos fazendo sinal, se abilolavam. Faziam das tripas coração e manobravam rápido com o pé no acelerador. Dispensavam os passageiros sem a mínima cerimônia. Tudo por medo. Mas, afinal, depois de varias tentativas, os três sambistas deram um golpe. O Talismã e o Toniquinho se amoitaram e o branco ficou exposto na vitrina. Naturalmente os crioulos se esconderam. Não que nisso houvesse alguma mumunha de preconceito racial. Se o jornalista que é branco, ficou abanando a mão foi porque quem transa pelos caminhos esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus sabe que chofer de praça acredita que dois crioulos querendo pegar táxi de madrugada é chaveco. E tanto isso é verdade que logo que ficou sozinho conseguiu parar um táxi. Aí, o Toniquinho e o Talismã apareceram. O chofer encabulou. Estrilou, chiou, quis cair fora, jurou pelo bico da luz que o iluminava que já estava recolhendo. Mostraram carteira de jornalista, a carteirinha da SICAM e o violão. Pálido e tremendo, o chofer examinou os badulaques e, contra a vontade, topou a corrida. Mas, mal deu a partida no carango, o chofer, nervoso, começou a arrear cascata e a contar façanha. Foi avisando que ele não era mole, que estava armado e que, se alguma vez alguém quisesse assalta-lo, ele ia morrer lutando e sabia que, pelo menos, um ele levava pro inferno. Também falou que precisava botar gasolina no automóvel e entrou no primeiro posto que viu. Aí se deu o esquinapo.
Os serventes do posto, ao meterem as botucas no táxi, com aquela patota dentro, não se acanharam em trancar as portas e se esconder. Não adiantou o chofer buzinar e fazer escarcéu. Desanimado, foi em frente. Avistaram um outro posto e deu repeteco. Não foram atendidos. Foram pro outro e mais outro e em todos receberam a mesma dispensa. Resultado, vieram até a cidade sem gasolina.

Plínio Marcos
(31.10.1972)
Webmaster: Bethynha


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