LIBERDADE AMEAÇADA ![]()
| Na primeira
noite eles se aproximam E roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; Pisam as flores, matam nosso cão, E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles, Entra sozinho em nossa casa, Rouba-nos a luz, e, Conhecendo nosso medo, Arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.... |
O poema acima, de Eduardo Alves da Costa, que erroneamente
muitos atribuem sua autoria a Brecht, se enquadra perfeitamente neste momento
da vida nacional, onde começamos a verificar a aproximação daqueles que pretendem
iniciar a "colheita" da mais preciosa flor da humanidade: a liberdade de expressão.
As recentes medidas adotadas pela justiça do Rio de Janeiro, reinventando a
censura do recente período ditatorial, coloca a todos nós, produtores culturais,
intelectuais e artistas, com as barbas de molho. Não sou chegado a acompanhar
novelas, mas daí a me permitir concordar com as medidas adotadas em relação
a "Laços de Família", vai uma distância sem limites.
Já há algum tempo venho observando as investidas contra o Programa do Ratinho,
do Gugu Liberato e outros. Como bem descreve o poema acima, todos se calaram
porque estava nevando na horta alheia. Seguro de si, dono da verdade e senhor
absoluto da razão, o monstro continuou sua caminhada até atingir outras metas.
Se a classe cultural brasileira continuar calada, esse monstro vai continuar
sua caminhada e, a partir de então, teremos que voltar a conviver com a censura
aos espetáculos e textos teatrais, nossos compositores terão que falar de amenidades,
os artistas plásticos só pintarão aquarelas, paisagens ou naturezas mortas,
e a imprensa voltará a tirar das estantes, os poemas de Camões, Castro Alves,
entre outros, alem da utilização diária dos livros de receitas culinárias.
O que mais me incomoda neste episódio, é que a justiça brasileira não observa
a mesma preocupação com relação às crianças abandonadas e entregues ao consumo
de drogas; aos desmandos e gatunagens em vários organismos governamentais que
a imprensa não cansa de relatar; ninguém quer saber de prender o Juiz Lalau,
o banqueiro Cacciola, desnudar as patifarias do futebol brasileiro; colocar
um ponto final no tráfico de drogas e armas e, na falta de segurança que assola
todo o país.
Para eles, na verdade, a desgraça do país está concentrada na liberdade de expressão,
cujo bode expiatório do momento é a novela "Laços de Família". Desvendar os
mistérios que cercam a conta das Ilhas Cayman ou, prosseguir no desmantelamento
do crime organizado, parece a esses senhores coisa do passado, invenções da
mídia patrulheira ou contos das mil e uma noites.
Se nos calarmos hoje, por certo, amanhã, teremos a nossa voz arrancada da garganta
e, ai então, realmente, não poderemos dizer mais nada. Restará o obscurantismo
e as trevas de uma nova ditadura. O que deveria incomodar estes senhores e senhoras
preocupados com a moral social, deveriam ser as famílias que sobrevivem sob
as marquises das grandes cidades, a violência que campeia nas ruas e praças
deste país.
Não existe crime social maior, do que se ter conhecimento que aproximadamente
44 milhões de brasileiros sobrevivem com menos de 2 reais por dia. Sobre isto
nenhum desses senhores se pronuncia ou adota uma postura jurídica que conduza
à solução do mais grave problema da sociedade: a fome.
Censurar, bater, prender, aplicar a lei draconiana nos criadores culturais,
é sempre o caminho mais fácil pra quem gosta de aparecer. A censura da TV ou
das artes em geral, cada família deve fazer a sua. Não gosta da programação,
mude de canal. Não gosta do estilo teatral de determinado espetáculo, não compareça
para assisti-lo. A responsabilidade pela educação dos filhos pertence a seus
pais. Se eles, pais, estão se lixando pra suas responsabilidades, não vai ser
um censorzinho qualquer que esteja de plantão, que mudará o rumo da história.
Fatos recentes deste país, já nos mostraram quanto mal a censura nos causou,
isto posto, é sempre bom reagir.
by: Carlos Pinto
23/11/2000
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