Santa Joana dos Banqueiros...


Durante as comemorações do Dia Internacional do Idoso, o Presidente Fernando Henrique Cardoso e, o Ministro da Saúde, José Serra, optaram por uma oratória bem ao gosto de platéias acostumadas aos programas de humor da nossa TV . Deixando de lado a expressão utilizada tempos atrás, de que os aposentados são vagabundos, nosso Presidente decidiu que os integrantes da chamada terceira idade devem, agora, procurar trabalho, que brasileiro gosta de se aposentar cedo. Só não disse onde estão esses milhões de empregos para serem ocupados não apenas pelos aposentados mas, também, pelas camadas mais jovens da sociedade brasileira.
O efeito da globalização engoliu nossas empresas e, de sobremesa, liquidou com milhões de vagas no mercado de trabalho. A abertura sem preconceitos às importações, criou sim, milhões de empregos em outros países, enquanto a nossa economia escorregava ribanceira abaixo, manipulada pelos especuladores internacionais de plantão, agindo diariamente nas bolsas e no mercado financeiro interno e externo. A chamada ação do capital especulativo que derruba bolsas de valores, decreta a falência de empresas e empresários, praticando o "dumping" e o cartelismo sem maiores cerimônias.
Por volta de 1929, o dramaturgo Bertold Brecht escreveu um texto intitulado "Santa Joana dos Matadouros", onde analisa os movimentos da bolsa de Chicago e as oscilações do preço da carne. É talvez a sua obra mais engajada politicamente, em que o autor toma partido a favor da luta de classes. O personagem "Pierpont Mauler", rei da carne, manipula com grande esperteza o mercado desse produto, de tal forma que seja sempre o ganhador. Aproveitando-se de uma baixa de preços da carne enlatada, ele consegue arruinar seus concorrentes, vendendo a preços inferiores. Desta forma vai forçando os marchantes a aceitarem ofertas mais baixas e, por outro lado, seus testas de ferro, adquirem o gado diretamente dos criadores. De tal forma articula esta armadilha, que os marchantes quando tem que entregar suas mercadorias são obrigados a comprá-la do próprio sr. Mauler, a preços superiores aos que ele havia pago aos referidos marchantes. Com o mercado todo em suas mãos, Mauler força a alta do produto, mas seus testas de ferro exigem preços tão altos, que obrigam o governo a autorizar as importações do produto em larga escala, provocando uma crise total em toda a indústria. Mesmo assim o sr. Mauler não se assusta e resolve queimar parte de seus estoques, diminuir a produção de derivados em um terço e, reduzir os salários de seus empregados e as vagas de trabalho. Qualquer semelhança com a nossa realidade é pura imaginação do leitor.
Isto posto, com os altos índices de desemprego que rondam sistematicamente os lares brasileiros, não consigo saber onde e quando, os nossos aposentados vão encontrar abrigo neste frágil mercado de trabalho, controlado pelo srs. Pierpont Mauler da vida nacional. Se adotarmos a cidade de Santos como exemplo, onde recente pesquisa determinou que quase 23% da população economicamente ativa está desempregada, sem alento futuro de conseguir uma colocação que lhes permita viver com dignidade junto com suas famílias. Se olharmos para o resto do país, ou mais precisamente para a Grande São Paulo, onde milhares de pais de família, diariamente, gastam a sola de seus sapatos andando de séca em méca atrás de uma vaguinha que lhes permita dar de comer a seus filhos. Onde achar esses empregos para os aposentados, sr. Pierpont Mauler ?
Ao largo, nadando de braçada sobre o PROER, nossos banqueiros engordam seus patrimônios, a exemplo dessa inusitada "ajuda" do Banco Central aos Bancos Marka e FonteCindam. Enquanto nossas reservas cambiais oscilam em torno dos 35 a 39 bilhões de dólares, o PROER já destinou quase a mesma importância em ajuda a esses "banqueiros patriotas, voltados para o bem estar da nossa sociedade". E quem ajuda os desempregados ? E quem mata a fome das populações excluídas ?
Voltando ao texto de "Santa Joana dos Matadouros", ao final, o chamado coro do escárnio em exaltação ao regime vigente, entoa o seguinte poema :
"Leva a riqueza aos ricos, hosana ! As virtudes também, hosana ! Dá a quem já tem, hosana ! Dá-lhe o Estado e as cidades, hosana ! Ao vencedor as palmas, hosana !"
Qualquer semelhança entre o texto de Brecht e, o que ocorre atualmente neste país, não é pura coincidência, mas uma realidade brutal, que se traduz nos níveis de violência urbana que hoje ocorrem em todas as grandes capitais e cidades brasileiras. Vivemos um claro preambulo que, se não forem adotadas as medidas urgentes e necessárias, nos levará a um conflito social de graves conseqüências. Que os presságios contidos nesta obra de Bertold Brecht, não se abatam sobre nós e que o sr. Mauler, consiga as vagas no mercado de trabalho, para encaixar os nossos "vagabundos aposentados", que não tiveram a sorte de serem "defenestrados compulsoriamente" com apenas oito anos de atividade profissional. Aliás, nem os valores percebidos em suas aposentadorias possuem qualquer relação. Que os nossos valorosos membros da terceira idade, consigam também uma proteção no nível da Santa Joana dos Banqueiros. (Carlos Pinto)
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