Uma História De Subúrbio

O Juca foi dar uma bandola num parque de diversões e suas botucas, de repente, bateram nas botucas da Rita. Ele dedicou a ela, através do auto-falante do parque, de coração, com afeto e prova de amizade, "Boneca Cobiçada". Mesmo sem o anúncio de nomes, Rita sabia que o bolerão vinha dele para ela e revidou com "Carmelito", um tango em homenagem ao admirador anônimo.
Nenhum dos dois se abriu de saída. Manjavam as regras do jogo: gama de subúrbio, para ser boa, tem que ser complicada. Sabe como é, o povão sofre influência de novela mexicana... Juca e Rita não eram exceção à regra. Antes de se encantarem, fizeram uns mil capítulos.
Até que o Juca pegou embalo e atracou a moça. Ela ia se mandando do parquinho e ele ficou no meio do caminho, na encolha, como quem não quer nada, com a intenção de dar uma pala. Bem baixinho, que se a moça não estivesse a fim de papo, era só fingir que não tinha escutado e pronto.
-Oi, preciso te falar - chiou o Juca num alô enrustido.
-Comigo?! - A Rita fez sua parte com perfeição.
A conversa logo engrenou. Os dois saíram andando rumo ao portão da casa da moça e o entendimento foi tão perfeito que, na hora de ir embora, o Juca pôde sapecar uma frase que escutou numa novela.
-Pombas! Primeira vez que a gente bate uma caixa e parece que eu te conheço há um cacetão de tempo - frase manjada, mas que sempre gruda.
-Vai ver nascemos um para o outro - retrucou a Rita em cima, com inflexão de ingênua de filme de cowboy.
Daí pra frente, os dois se abilolaram. Se vidraram um pelo outro. Troço bonito era o amor daqueles dois. Tão limpo, tão cheio de esperança! Bacana mesmo. E talvez tenha sido por isso que entralhou tudo. De gamado, o Juca passou a anunciar por toda a parte as virtudes da Ritinha. Da sua Ritinha, namorada ponta-firme e futura mulher-de-fé. Fazia quás-quás-quás em qualquer lugar pra falar dos predicados da Ritinha...
O alvo predileto do Juca pra cantar a beleza do seu amor era as orelhas do Oscar, amigo do peito e parceiro de quarto. O Oscar era um tímido solitário, que escutava as histórias do Juca com atenção, sonhando em arrumar uma Ritinha pra si próprio. Mas, que nada: além de tímido, sem graça, o Oscar não era de dar sorte com mulher.
Pra piorar, toda vez que apanhava uma piranha qualquer, o Oscar botava a comparar as virtudes dela com as da Ritinha. Com as maravilhas da Ritinha, que conhecia na versão do Juca apaixonado e que levava ao pé da letra, tintim por tintim. Com essa catimba pra atrapalhar, não encontrava nada que lhe servisse.
Resultado: o Oscar acabou ficando gamadão na namorada do amigo. A gamação do Oscar surgiu por tabela, sem que ele percebesse. Veio em forma de marola, que ele rebateu, com vergonha de reconhecer, depois, virou onda dentro da sua cuca; por fim, acabou se tornando uma pororoca que inundou todas as barreiras. E a gronga encarnou.
Sem desconfiar de nada, o Juca apresentou a Ritinha pro Oscar e os três foram ao cinema juntos. No fim da noite, mais por educação e pra não desfeitar o amigo do namorado, a Ritinha deu uma abertura pro Oscar:
-Venha sempre que quiser.
Cada vez que o Juca falava de Ritinha, o Oscar se roía de ciúmes. Se trancava, mas tinha se tornado agressivo e mal humorado; ele, que sempre fora um pinta manso. Claro que o Juca percebia a mudança no trato com o amigo, mas o Juca apaixonado andava em paz com Deus; disposto a compreender qualquer um. Pro amigo, dava desconto de monte; atribuía suas ranhetices à vida solitária que levava.
Por pena, o Juca acabou convidando o Oscar pra passear com ele e com a Ritinha. Convite aceito na hora. O Oscar se segurou na palavra e o Juca nunca mais teve folga: dali pra frente, só namorou com o Oscar segurando vela. Uma coisa chata pros três, mas o Oscar fingia não notar. O Juca, trambicado, se acanhava de dar o passa-fora no amigo. A Ritinha, de sua parte, tolerava a sinuca por acreditar que não pegava bem esculachar um amigo do namorado; acreditava mesmo que aquela bobeira era algum truque do Juca para testá-la.
Assim sendo, comeram um bocado grande de capim pela raiz, até que, farto, o Juca deu uma dura no Oscar.
-Olha, meu, vê se tu larga do meu pé. Tu é positivo, mas eu gosto de ficar sozinho com a Ritinha. Se tu quer aparecer, aparece, mas não todo dia.
Como resposta, o Oscar sacou de uma arma e, pra espanto do Juca, escancarou seu íntimo.
-Já que tu puxou o assunto, hoje vamos decidir quem vai ficar com a Ritinha: ou tu, ou eu.
Afobado diante da arma, o Juca quis contornar a desgraça que se desenhou.
-Que brincadeira besta é essa, Oscar?
Só que não era brincadeira e o Oscar mostrou logo isso. Deu no gatilho e meteu um arrebite na testa do Juca. Ele já desabou estarrado; foi direto falar com Deus. Vendo o estrago que fez, o Oscar apavorou e deu pinote. Por inveja, fizera a desgraça dos três. Não ganhou a Ritinha, nem nada.

by: Plínio Marcos

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