O FIM DO VELHO SAMBISTA

O velho estava no samba desde o tempo do tamborim quadrado e do surdão de barrica. Viu quando a cuíca piou na parada. Ajudou a fundar uma das primeiras escolas de samba das quebradas do mundaréu.
Garantiu muito batuque na rua na valentona, quando a polícia não queria saber de quás-quás-quás de sambista e não fazia cerimônia pra descer o chanfalho na curriola que se chegava nos pagodes. O velho então era um garotão liso, que se mexia rápido, dizia no pé, não enjeitava parada e não botava o galho dentro em situação nenhuma. Sua palavra era a lei e o mulherio com gosto fazia dengo pra ele.
Porém (e sempre tem um porém), os anos passam. A carga foi ficando pesada, as pernas foram perdendo a agilidade e os olhos de bem ver foram vendo, pálidos de espanto, antigos companheiros irem falar com Deus, as primeiras namoradas deixando os lugares de destaque na escola pra desfilarem na ala das baianas.
E viu, assombrado, um pivetão folgado se aproximar e sem tal e coisa e nem coisa e lousa, gozar a sua fuça no meio de um partido alto. Era a velhice.
Não dava mais pra fazer e acontecer no meio da roda. Já não ia no chão com graça quando se esquivava do rodo inimigo. Caia mesmo. E pra puxar samba o gogó não ajudava. Os cachaçais, as madrugadas e o fumo forte lhe deram uma rouquidão tinhosa e o fôlego na caixa do catarro ficou chué. Mas, sem samba ele não era ninguém. Então, se conformou em ficar na direção da escola assoprando pros mais novos todas as mumunhas que suas botucas flagraram na longa jornada. Deu as dicas certas. Campeonatos pra gloriosa escola. Escutou, cheio de orgulho, a gente moça cochichar:
-O velho sabe. Sabe mesmo. Velho maroto, tá por dentro.
Mas, viu também o tempo continuar passando. E a gente nova que lhe tomava a benção ir perdendo o respeito. Pegando o baralho, cortando, jogando de mão sem o considerar. Quis dar o estrilo, chiar, botar a boca no trombone e se entrutou. Foi tirado de letra. Recebeu homenagem, diploma e percebeu que tudo não passava de "um chega pra lá". Tremeu nas bases. Mas por amor ao samba, não se acanhou. Não concordava com a linha que queriam dar pra sua escola. Pra escola que ele ajudou a fundar. Quis impedir. Faltou força. Não tinha votos. Não era mais diretoria. Nem assim se retirou da ativa.
Tentou alertar uns e outros. Passou a falar na birosca da subida do morro, no boteco em frente à escola de samba, nos ensaios da escola e em todos os cantos das quebradas do mundaréu. Dizia sem rodeio que era contra virem os artistas ocuparem seu lugar de sambista. Não entendia porque era preciso um figurinista badalado vir lá embaixo da cidade pra bolar as fantasias que sempre Dona Liquinha, costureira, fez com capricho e amor e que muitos títulos deram pra escola. Nem aceitava a idéia de um branquelo de bigodão e óculos, com um palavrório difícil, vir explicar o enredo pro desfile.
Falou e disse o velho. Mas, em troca, só recebeu um risinho debochado. Alguns novatos mais embandeirados até gozaram o velho:
-O vovô tá caduco.
-Já era.
-Tá pensando que agora é como no tempo dele, que só tinha bloco.
-O vovô não se toca.
-Ele foi grande, mas agora tá por fora.
-Manda ele deitar ai que a gente enterra.
-É isso. Já passou do tempo e ainda fica perturbando.
-Acho que tá penando. É melhor mandar rezar a missa do coroa.
Aí, o velho entendeu que não dava mais pra segurar as pontas. Que o samba já não era o seu samba, em que os velhos sempre davam as palas pros mais novos, só pra não se perderem as raízes. Se calou. Foi saindo de fininho do terreiro da escola. Parou no boteco defronte, pediu a penúltima pinga. Bebeu num gole. E diante dos vagaus presentes, o velho, de estalo, deu um recado de sambista de verdade.
A patota gelou. Até os mais pirados de cuca sentiram o aroma da perpétua. Mas o velho não quis ou não pode esperar o resultado. Saiu do boteco. Andou uns passos e desabou. Desencarnou. Com ele foi o axé de fundamento de muita arte popular.

Plínio Marcos
(12/05/1973)

Voltar....

Clique acima para voltar...
Clique aqui para enviar...

Site melhor visualizado com o MS Internet Explorer 4 ou versões superiores em 800 X 600 High Color

Webmaster: Bethynha