Comemora-se a 27 de março, o Dia Mundial do Teatro,
uma arte que nasceu do rito, seja ele religioso, fúnebre, festivo,
civil ou de guerra. Os povos primitivos por meio da dança costumavam
exprimir seus estados emocionais e dramatizar situações, notadamente
relacionadas com a luta do homem contra o destino, as forças da natureza,
o sexo e a vingança.
Atribui-se a Téspis, no século VI A C, esta invenção genial que veio
possibilitar o trânsito da primeira forma lírica e narrativa, para
uma tentativa de representação dramática. Atribui-se a ele, também,
a invenção de um carro que funcionava como um teatro portátil, e levava
as representações às praças públicas. Em tais oportunidades, Téspis
mascarava seus atores com unturas de borra de vinho, tornando-se também
o precursor das famosas máscaras gregas. É dele, ainda, a introdução
no coro, ( que era realmente o que constituía a parte representativa
da antiga tragédia) de um ator que iria narrar as ações de um personagem
ilustre, para desta forma, não parando a ação do teatro, permitir
com que o coro obtivesse um breve descanso em seu contínuo trabalho.
Sua obra foi também, a precursora da informação e do jornalismo, já
que Téspis captava nas aldeias e cidades por onde passava, estórias
e notícias daquela localidade e as transformava no texto que iria
apresentar na aldeia ou cidade para onde estivesse se dirigindo. Tais
informações chegaram até nós através de Horácio, em sua "Arte Poética",
escrita cinco séculos após.
A arte no geral criou a conceituação de ser vanguarda e precursora
das conquistas sociais e políticas das civilizações que se seguiram
até nós. Não deve andar a reboque de nada e de ninguém. Deve ater-se
aos fatos, narrar acontecimentos, procurar conscientizar a sociedade
na busca de melhores caminhos que a conduzam ao que Bertold Brecht
propôs em sua obra : o homem como parceiro do homem, na procura do
bem comum, da paz e do progresso da humanidade. A arte que costuma
incensar os governantes, que produz o chamado "besteirol", que não
coloca a cabeça do espectador para pensar e raciocinar, é uma arte
comprometida com o retrocesso, voltada unicamente para o lucro fácil
das bilheterias, descompromissada com o futuro e inimiga do progresso
dessa mesma humanidade.
Neste particular o teatro brasileiro, salvo raras exceções, nos dias
que correm, está mais voltado para ser retaguarda, abdicando da sua
missão de ser a vanguarda cultural e social. É bom que se diga que
vivemos hoje, tempos difíceis, onde a censura econômica tomou o lugar
da censura ideológica que vigorou nos tempos do regime militar, como
a denunciar uma ditadura invisível travestida de conceitos democráticos.
Porém, é sempre bom lembrar que a cultura brasileira, mais precisamente
o teatro e a música popular, produziram nos anos de chumbo aquilo
que conceituo como melhor período de nossa produção artística. Driblando
a censura, optando por caminhos alegóricos, mas sempre denunciando
a opressão e o cáos social, transformando o regime de então, na grande
musa inspiradora. Celebramos neste 27 de março mais um Dia Mundial
do Teatro, com as apreensões de sempre, mas, voltando a Téspis, o
primeiro dramaturgo de que se tem notícia, a quem pertence a criação
de um diálogo entre o coro e um ator que personificava Dionísios.
Tal personagem, recebeu a denominação de "hipocrates", que significava,
o respondedor. Tal diálogo, presenciado por Solon, o teria deixado
perplexo a ponto de indagar Téspis, se não tinha vergonha de se fazer
passar por outra pessoa, de mentir publicamente daquele modo. Em resposta,
Téspis disse a Solon que não havia mal algum em suas palavras ou em
sua conduta, porquanto tratava-se apenas de um jogo, ao que Solon
respondeu : "Mas se aceitamos e aprovamos o jogo, terminamos por encontrá-lo
transformado em realidade em nossos contratos." Com o tempo a palavra
"hipocrates", deu lugar a um novo significado : hipócrita, fingido,
mentiroso. Que no futuro, os criadores da cultura cênica de hoje,
não venham a ser reconhecidos por tal terminologia, ao "aceitar docemente"
as atuais regras do jogo. Sempre é tempo de pensar e mudar.
CARLOS PINTO
Jornalista
Secretário Municipal de Cultura de Santos
27/03/2001

