UMA FESTA PARA NOSSA HISTÓRIA

O telefone toca. É o Carlito. Também conhecido como Dr. Carlos Aluisio de Canelas Godoy, um mestre da jurisprudência. Mas, pra nós, ele é o Carlito do Futebol; o Carlito que começou no Pompéia do Campo Grande, ali no bairro de um dos maiores seresteiros de Santos, o compositor Lúcio Cardim; o Carlito do Jabuca; o Carlito do São Paulo; o Carlito do Sentimento, de Campinas; o Carlito que, atualmente beirando os 70 anos, ainda anda rolando pelo mundo com o time dos veteranos dos juizes de Direito: Itália, Chile, Argentina, França, Estados Unidos, Paraguai e onde pintar uma pelada.
Outro dia, o Bariri (mais conhecido como Dr. Péricles de Toledo Piza), que também foi craque (jogou no juvenil do Santos e pendurou as chuteiras agora, aos 65 anos, pra casar), me contou que o Carlito lhe confessou recentemente que daqui uns três ou quatro anos vai se aposentar no fórum e aí, sim, vai se dedicar ao seu grande ideal, o futebol; vai ser treinador, nem que seja num time de terceira divisão de interior. Isso é que é paixão! E todo mundo sabe disso. Noutro dia encontrei o Estevão (que foi beque do São Paulo, da Portuguesa de Desportos e jogou com a gente no Sentimento de Campinas) e ele me perguntou pelo Carlito. Eu informei que nosso amigo estava bem, era juiz. O Estevão não vacilou, só quis saber em que divisão o Carlito estava apitando. Pois é. Difícil a gente do futebol imaginar o Carlito de capa preta, no foro.
Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é que Carlito ligou às vésperas da virada do ano e foi logo intimando:
- Olha o dia 31, hein? O Chopbola vai jogar contra os veteranos do Santos.
Argumentei que há 20 anos tem esse jogo, eu sempre compareço.
- Mas esse ano é diferente! O presidente Nelsinho quer fazer uma festa bonita. Vão homenagear você, o Paulinho Jabaquara e o Norberto Cabeça.
Achei legal. Ultimamente deram de me homenagear toda hora.
- Vai ser mais que legal! O Paulinho do Jabaquara, que desde menino trabalhava na sede do Jabuca pra ganhar um troco, e o Norberto Cabeça, uma fera que ajudou a Portuguesa Santista a voltar pra primeira divisão em 67 ao vencerem a Ponte Preta em Campinas, estão do seu lado formando o trio de homenageados, entendeu?
Entendi. E imaginei como seria a festa... O Santos iria com Lalá, grande goleiro do Peixe, e toda a turma; Pepe, o Canhão da Vila; Lima; Jorge Trombada; Manoel Maria; Serginho Chulapa; Gonçalo; Bianchi; Araras; Flavinho.... Gente que marcou época no futebol do Brasil e do mundo.
Quando eu disse que ia contar essa história aqui no Jornal da Orla, o Bariri me advertiu: não esquece de falar do Geraldino. Esse não joga mais, mas é uma figura impressionante, um cara de valor. A bem da verdade, sempre foi assim. Tinha uma fibra rara no tempo de jogador. Agora o Geraldino é leitor de tarô, meu colega nessa sina que Deus nos deu, e só me honra, por fazer isso com lisura e enorme percepção. Deus guarde o Geraldino.
Mas foi uma festa linda. Eu, o Paulinho e o Norberto ficamos numa roda no meio do campo. Em volta, nosso goleiro, o Sérgio (do Santos, do Internacional); Oswaldinho Monforte; Sandro; Celestino; Eduardo; Nelsinho (um presidente mais jogador, não um cartola; ele é que vai fazer o jogo da passagem do século); Serginho ( que foi ponta esquerda da Portuguesa Santista e do Palmeiras); Helinho; De Rosis. O jogo foi ótimo, 1x1 no placar.
Pra maior encanto dessa tarde mágica, o Narciso de Andrade, um dos grandes poetas santistas, um dos melhores de todos os tempos, deu o ar de sua graça. Grande amigo, sempre espiando com atenção as coisas da nossa gente.
Obrigado por tudo, meus amigos dessa pelada que há vinte anos acontece entre o Canal 6 e a Escolástica Rosa.

Plínio Marcos
(10/01/99)

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