NEM TUDO O QUE PARECE É FAQUIR
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Sabe quem é Zé Ramos Tinhorão?
Um santista que é, sem nenhum favor, o maior historiador de música popular brasileira.
E, vira e mexe, vai a Portugal. Vida de rico é assim mesmo. E o nosso historiador
merece. Mas, deixa isso de lado. O que quero contar e que pesa na balança é
que numa dessas viagens ele viu -e se assombrou- com uma figura que se exibia
nas esquinas de Lisboa.
Era um homem pálido. Muito pálido. Vestido de terno preto, camisa branca e gravata
preta. O traje deixava o figuraço ainda mais pálido. E ele ficava imóvel. Incrivelmente
imóvel. Não mexia um músculo do rosto. Não piscava. Ficava estático. Como uma
estátua. Como um bicho empalhado. Só fazia isso.
O público, também imobilizado, ficava com os olhos fixos no homem de preto.
Ficavam todos presos no artista, por muito tempo. Como se estivessem magnetizados
por aquele espantoso não fazer.
Aos poucos, quase imperceptivelmente, o figuraço, como se tocado levemente por
uma brisa suave, começou a pender para um lado. Demorou um pouco para um dos
lusos que assistia notar o movimento e gritar afobado: -o gajo vai tombar no
chão.
Toda a platéia, inclusive o Zé Ramos Tinhorão, prendeu a respiração. E o homem
de preto inclinando, inclinando, inclinando... Quando parecia que era impossível
não cair ele começou devagar, bem devagarinho, a retroceder à posição inicial.
Aí uma bela moça entrou na fita, correndo uma sacola e recolhendo uns trocos.
Nessa altura do campeonato, o Zé Ramos Tinhorão saiu de fininho. Por essas e
outras economias é que ele ficou rico...
Na Europa inteira se confunde esse tipo de artista com faquir. Mas não tem nada
a ver. É tipo de artista de mafuá, de circo mambembe, de fim de feira. Tem artista
desse naipe que se deixa enterrar com cobras por vários dias de jejum. Fica
semanas deitado, só de tanga, numa cama de prego, com aranhas e escorpiões passeando
pelo corpo. Mas não é faquir. Pode ser grande ilusionista, mestre prestidigitador,
mesmerisador, hipnotizador capaz de provocar visões coletivas, mas não é faquir.
O que é? Artista. Enganador. Charlatão. Sei lá... Mas não é faquir.
O europeu confunde muito o feiticeiro ropiador, o dervixe e o iogue com faquir.
Nada a ver. Esses jamais seriam autoflageladores. Esses podem ser santos, curadores,
mas nunca se autopuniram como faz um faquir.
Tivemos aqui no Brasil um faquir famoso, o Silke. Cheguei a conhecê-lo pessoalmente
no bar dos artistas de circo ali no largo do Paissandu. Ninguém botava fé nele.
Diziam que suas temporadas de jejum eram fajutas. De noite, afirmavam, ele comia
escondido. Ele sofria muito com essas acusações. Mas o campeão do mundo dos
faquires, o Silke, morreu de repente. Ninguém ligou. Ainda por cima, tiraram
um sarro nele. Espalharam que morreu de fome. E tem mais: se passar fome fosse
arte, o Brasil seria campeão do mundo no assunto...
Plínio Marcos
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