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Os mistério de Elêusis/Brasília

"Ruem altares, sublimes tronos divinos,
Profanados, caem desfeitos.
Os culpados expiam, expiam duramente;
A fonte da desgraça não seca,
Borbota, borbota sempre.
Montes de mortos dão testemunho mudo
De que aos mortais não é dado o orgulho.
Vede o castigo da soberba!
Sobre o ambicioso cai pesada a mão divina."

O trecho acima é parte da tragédia "Os Persas", escrita por Ésquilo, (525 a 456 AC) e tem como ponto referencial a invasão da Grécia pelos persas. Mas de onde veio Ésquilo? Quem realmente foi este grande homem que produziu os passos decisivos para firmar a dramaturgia, ao produzir obras capazes de levar ao delírio todos os espectadores?

A alguns quilômetros de Atenas, à beira mar, defronte à rocha branca de Salamina, situa-se Elêusis. É um campo arado, rodeado por montanhas, em cuja planície florescem os cereais de toda espécie e, em suas encostas os vinhedos, cujos frutos são amadurecidos pelo sol quente. Para agradecer à terra tão rica fertilidade, seus habitantes veneravam uma divindade. Não se tratava de um culto nascido do medo das forças da natureza, com a finalidade de afastar as tempestades e favorecer as colheitas.

Estes homens cuja inteligência era reconhecida, formados nos cantos de Homero, de há muito haviam desenvolvido um culto que se manifestava nas celebrações conhecidas pelo nome de "Mistérios de Elêusis", que muito embora vários séculos já se tenham passado, ainda despertam uma sensação misteriosa. Sabe-se que era um culto secreto, razão pela qual faltam pormenores de suas celebrações porem, suas cerimonias de caráter simbólico nos fazem lembrar de um certo modo, a nossa Igreja Católica.

Ali nasceu Ésquilo, cujo pai pertencia às famílias da terra e que eram ligadas a este culto, razão pela qual todas as suas criações dramáticas estejam determinadas em grande parte pelos mistérios e pelo mar. Elas transitam pelas forças divinas respirando o marulhar e a força do mar, falando da paz crespuscular das águas tranqüilas.

Este clima de paz, de dignidade familiar, de amor incondicional aos preceitos libertários onde os tiranos não eram bem vistos, e onde se acolhiam a todos que a fome de liberdade conduzia ao exílio, foi o berço de Ésquilo. Esta revolta contra todo tipo de ditadura foi desde cedo um dos itens da formação intelectual e política do nosso grande trágico, figura por demais importante até os dias de hoje, na formação de milhares de gerações. Teve em Homero seu mestre, e considerava que suas obras, eram migalhas caídas da mesa farta do grande poeta. Lutou contra os persas onde se destacou como guerreiro, conhecendo tudo aquilo que pode atravessar o caminho de um homem justo e corajoso. Lutou pela liberdade o simples soldado, foi poeta coroado e admirado pelo mundo como o pai de uma nova arte: o drama.

Com o aparecimento de Sófocles, passou a ser perseguido judicialmente, já que seus adversários no campo político, repentinamente, passaram a entender que ele tinha transgredido as leis religiosas de então, ao adotar em suas obras os usos, vestes e ritos dos "Mistérios de Elêusis", que só aos iniciados era permitido observar. Para seus adversários, Ésquilo havia cometido um sacrilégio, e ele, que observava as coisas por um prisma superior, que somente desejava conscientizar nos homens a razão e a sabedoria, foi obrigado a emigrar para evitar um constrangedor comparecimento diante de um tribunal.

Atendendo a um convite de Hierão, senhor de Siracusa, um enérgico amante das artes, deixou Atenas em um barco dirigindo-se à Sicília. Os anos ali passados se transformaram em uma época de farta criação poética. Entre muitas, elaborou uma de suas mais importantes obras : "Oréstia", cuja forma, linguagem e riqueza de pensamento, transformou-se em uma trilogia ainda não igualada na literatura dramática universal, na opinião de vários de seus críticos. Desenvolveu nesta obra um tema onde aparecem todos os horrores, os desmandos e a corrupção política, alem da profundidade e da elevação da alma humana. Esta trilogia, na visão de muitos amantes das artes cênicas, poderia receber os títulos de: ação, vingança e expiação.

Em "Oréstia", analisa o regresso de Agamennon, rei e chefe militar da guerra de Tróia. Sua mulher, Clitemnestra, finge aos olhos da população que irá recebê-lo com alegria mas, na verdade, arquiteta seu assassinato em função de Agamennon ter sacrificado sua própria filha, Ifigênia, com a finalidade de obter ventos favoráveis para seu navio. Era substituído em sua ausência por Egisto, ao qual, o pai de Agamennon, havia torturado e aplicado imensas dores. Quando regressa ao palácio, Agamennon é assassinado por Clitemnestra, que também mata Cassandra, uma vidente originária de Troia, que o monarca havia trazido para Atenas.

Na segunda parte da trilogia, Orestes, filho de Agamennon, que havia sido educado longe da corte, corre para vingar o pai. Nessa seqüência ele mata Egisto e, contando com o estimulo de Electra, sua irmã, mata também sua própria mãe. Muito embora sua ação tenha decorrido "por ordem dos deuses", termina por cair em poder dos espíritos da vingança e como saída é obrigado a fugir do local. Na terceira parte as deusas da vingança perseguem Orestes aos gritos, e o fugitivo, chega até os degraus do templo de Apolo onde é finalmente absolvido.

Porém uma força irresistível atraia Ésquilo para voltar à velha pátria de onde fugira e, resolveu então, regressar a Atenas. Foi recebido com festas como a um filho que retorna após longa ausência. Fez a entrega de sua obra "Oréstia" ao Colégio dos Juizes de Prêmios, que resolveram encená-la imediatamente. Após mais de oito horas de representação no teatro de Atenas, uma tempestade de aplausos saudou Ésquilo, que recebeu a famosa coroa de louros atribuída aos vencedores.

Muito embora "Oréstia" tenha se transformado em um êxito fabuloso, o autor não conseguiu transmitir à platéia o que sua obra ocultava, na qual solicitava com muita clareza que a direção política de Atenas continuasse entregue ao areópago, um conselho de homens e juizes independentes, com vasta experiência e sabedoria. Ocorre que na Atenas de então, em função da luta entre os partidos, havia nascido uma democracia descontrolada que com o correr do tempo, tirara ao Estado qualquer meio de defesa possível, diante das ameaças e perigos ao próprio processo democrático. Na visão do autor, aparecia com nitidez que o futuro de Atenas seria muito difícil.

Como dramaturgo celebrizado que não era ouvido e como estadista sem cargo, Ésquilo sentia-se impotente perante os desmandos que ocorriam e as desgraças que se avizinhavam. De acordo com sua forma de pensar, só um Estado forte e apoiado em si mesmo e na força da sociedade, ostentaria condições de passar ao largo das tempestades, sem medo algum delas, podendo também, sob a proteção de um exército bem equipado e muito bem treinado, dedicar-se às obras da paz, da fraternidade, a uma concepção de leis mais justas e sociais, às artes e a um incentivo maior às pesquisas cientificas.

Séculos se passaram e as lições de Ésquilo continuam vivas, principalmente, diante dos "Mistérios de Brasília". O que temos hoje como governo, pouco difere daquilo que os atenienses tinham ao tempo de Ésquilo. Se saímos de um estado de exceção, onde o pensamento e a ideologia eram transferidos para as masmorras e cemitérios, acabamos por adentrar um estado onde se processa uma ditadura invisível, com regras econômicas ditadas pelo Fundo Monetário Internacional, que aviltam nossa soberania e independência, empobrecem cada vez mais os desvalidos e produziu um dos maiores índices de desemprego na atualidade mundial.

Nossa dívida externa continua crescendo ao sabor da flutuação do dólar, e a nossa dívida interna caminha para o terreno do impagável. A cada dia florescem novos impostos e o dinheiro arrecadado por essa derrama, junta-se ao metal podre obtido com a "doação" de nossas empresas estatais com a única finalidade de pagar serviços da referida dívida externa. Voltamos ao colonialismo selvagem, que desde a época do descobrimento surrupia nossas riquezas, enquanto se massacram 44 milhões de brasileiros que sobrevivem com menos de dois reais de renda por dia.

Se no passado, quando aqui aportaram os portugueses, havia uma população indígena calculada em cinco milhões de habitantes, o que vemos hoje é essa mesma população indígena transformada em pouco mais de 300 mil descendentes. Da forma como as coisas caminham, "Os Mistérios de Brasília" podem produzir um novo genocídio, levando esse segmento de 44 milhões de brasileiros a que acima me refiro, para a morte lenta produzida pela fome, em função da falta de sensibilidade governamental, que prefere gastar 650 milhões de reais em propaganda, do que aplicar essa quantia em programas sociais de atendimento às populações desassistidas.

O que hoje se percebe nesta democracia capenga, é a luta surda dos partidos políticos, através de alguns de seus caciques, por fatias maiores do bolo governamental. Pouco estão interessados nas desgraças e sofrimentos que assolam os lares brasileiros. Tal qual Atenas, o Senado transformou-se em palco de representações pouco edificantes, onde Senadores se agridem verbalmente com acusações de enriquecimento ilícito, tráfico de influência e demais itens que compõem o currículo de boa parte da classe política nacional. E ninguém toma qualquer providência.

Inexiste uma política de segurança pública, como de resto, inexistem quaisquer políticas sobre, cultura, saúde pública, agricultura, esportes, educação, turismo, meio ambiente, mercado de trabalho para os desempregados e demais. Vai tudo no vai da valsa, sempre acreditando na máxima popular de que Deus é brasileiro. Se para Ésquilo, da luta dos partidos políticos havia nascido uma democracia descontrolada na Grécia antiga, a história hoje começa a nos mostrar que corremos o mesmo risco.

Que mistérios Brasília oculta, em seus meandros palacianos, ritos, e cerimônias, que com ajuda da mídia chapa branca mantém o povo distante da realidade? Por que se desenvolve uma política econômica baseada unicamente no controle inflacionário, distante dos programas de crescimento e amarrada aos ditames do FMI? Por que não se adotam medidas para conter o crescimento da corrupção nos mais variados setores governamentais? Por que só os gatunos pé de chinelo ocupam as vagas das penitenciárias? Será que alguém neste país ainda acredita que os donos do tráfico de armas e entorpecentes são os moradores das favelas e dos morros?

A Receita Federal, que é tão eficiente no controle do pagamento do imposto de renda por parte dos assalariados, porque não mantém o mesmo controle sobre os banqueiros e alguns empresários que insistem em burlar o erário público? Vai continuar sobrando para a massa oprimida o pagamento da conta Brasil? Onde está aquele homem que da cátedra universitária, conclamava seus alunos a lutar pela liberdade, pela volta do estado de direito, pelos direitos constitucionais do povo? Mudou de lado? Esqueceu tudo que escreveu e disse? Está maravilhado com as mordomias que o poder proporciona? Anda apenas preocupado com a volta do parlamentarismo e a sedução de ser o Primeiro Ministro?

Voltando a Atenas e aos "Mistérios de Elêusis", desencantado com a situação política Ésquilo resolveu deixar a Grécia novamente. Gostaria até de lá continuar mas a vida política o repugnava. Deixou Atenas por entender que, por razões políticas, poderia ter sua liberdade novamente ameaçada. Na partida é bem possível que de braço erguido, tivesse previsto guerras civis, opressão e escravidão, como de fato ocorreram.

Novamente cruzou o mar em direção da Sicília, mas não retornou a Siracusa. Para seu novo exílio procurou um lugar pequeno chamado Gela. Como sempre foi um homem de bem, íntegro, sincero e leal, teve uma recepção à altura dos seus predicados. Em Gela viveu modestamente, como de resto sempre o fez, até seus últimos dias de vida. Para ele, um poeta clarividente, tinha por convicção que um povo que se desliga das forças extraterrenas que comandam a natureza, acaba por perder as energias e corre ao encontro de graves perigos.

Ésquilo, que se transformara de guerreiro em defensor da paz, poeta renomado, pai da tragédia grega e do teatro universal, ao final da vida não conseguiu encontrar mais do que a simples quadra que ornava seu epitáfio:

Aqui jaz Ésquilo, o ateniense, filho de Eufórion,
que a morte venceu em Gela, terra farta.
Da sua força de lutador que te fale o bosque de Maratona,
que te fale o persa, de cabelos fartos, que a enfrentou.

Que os perigos previstos por Ésquilo para Atenas, ocorridos na seqüência dos desmandos cometidos por seus governantes, não sejam um alerta para todos nós, brasileiros, que assistimos hoje, perplexos, este desfilar de acontecimentos que empobrecem nossa frágil democracia, desestimulam nossa crença em dias melhores, e nos permitem crer nas palavras de Rui Barbosa, de que um dia, teríamos vergonha de ser honestos.

by Carlos Pinto
02/05/2000
Webmaster: Bethynha

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