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Houve um tempo em que fazer
samba em São Paulo era tarefa de leão. A polícia acabava com qualquer
pagode na base do chanfalho e não tinha quás-quás-quás. O sambista que
marcasse bobeira ia pro xilindró. Nessa época, o samba da paulicéia só
não foi pro beleléu graças a uma patota de muita fé, que encarava o que
desse e viesse, mas botava o samba na rua. Inocêncio Mulata, discípulo
do Dionisio Camisa Verde e Branco, Pé Rachado, Pato Nágua, Vassourinha,
Jambura, Marmelada, Nego Braço, Zoinha e tantos outros seguravam o rabo
de foguete. Não tinha escama. Eram os que comandavam a zoeira de memoráveis
carnavais. E pra seu governo, meu lorde, as pauleiras não eram só com
a polícia, que não queria ver crioulo brincando. Sobrava biaba cada vez
que duas escolas ou dois blocos se cruzavam. Sente o aroma da perpétua.
Quando o Campos Elíseos descia a Avenida São João e encontrava o Vai-Vai
subindo, o perereco fervia. O baliza do Campos Elíseos e o do Vai-Vai
avançavam e, com mil e uma mumunhas, dançavam batendo o bastão um no outro.
E as baterias faziam das tripas coração pra abafar a do inimigo. E as
porta-bandeiras diziam tudo que sabiam no pé, fazendo evoluções magníficas,
que agitavam os gloriosos pavilhões. Mas, tudo até aí era competição honesta,
gentilezas e tal e coisa. Depois, as escolas iam passando uma pela outra.
E dava bochicho. A negada das alas não perdiam a chance de xingar e esculachar
o pessoal adversário. E como ninguém comia enrolado, o rolo se formava.
Surgiam na parada navalhas, pau, tamanco e muito ferro. O resultado era
cana brava e hospital sentido. Mas, deixa isso tudo de lado. O que quero
contar e o que pesa na balança é que, naquele tempo bravo, uma das cabrochas
mais bonitas e mais entusiasmadas com o samba era a Sinhá da Barra Funda.
Ela, no Carnaval, não fazia cerimônia. Brincava pra valer e botava fogo
no pagode.
Saía da Barra Funda um trio de couro comandado pelo Inocêncio Mulata.
Vinha lá do Largo da Banana, mandando ver. Atrás vinham uns vinte crioulos
sambando e, entre eles, a cabrocha Sinhá, de alta linha e de muita embaixada.
E por onde o pagode ia passando, ia juntando gente na cola. Quando o trio
de couro chegava na Praça Marechal, já eram mil crioulos dando o recado.
E na Alameda Glete, já crescia o número pra dois, três mil pagodeiros.
E iam em frente até a polícia entrar na fita.
Depois, Sinhá, sem sentir falta de gás, vestia a fantasia e saia pelas
ruas com o Camisa Verde e Branco da Barra Funda, seu cordão de axé forte,
que hoje virou escola, mas continua legal como era no começo, nas mãos
do Mestre Dionísio. E foi assim que a cabrocha Sinhá ganhou divisas de
sambista batalhadora pelos pagodes. Ninguém lhe deu os títulos. Ela foi
buscá-los no meio da batalha e se fez a maior no samba da paulicéia.
Porém (e sempre tem um porém), os anos passam. As novas gerações de sambistas
já encontraram meio caminho aberto pelos que vieram na frente. Já pegaram
subvenções, proteção da polícia, organização e nem se lembraram dos que
conquistaram esse pouco, quase nada, mas que, comparado com antigamente,
é muito. A cabrocha Sinhá, que agora é a nossa querida Tia Sinhá e que
agora permanece firme na Escola de Samba Camisa Verde e Branco da Barra
Funda, incrementando o samba e dando embalo pros pagodeiros, foi esquecida.
Nunca ninguém se lembrou de fazer uma homenagem a ela, campeã de tantos
carnavais. Todos reconhecem seus méritos de primeira dama do samba paulista:
Mocidade Alegre, Unidos da Vila Maria, Peruchão, Morro da Casa Verde,
Peruchinho, Folha Azul do Marujo, Lavapés, Império do Cambuci, Vai-Vai,
Fio de Ouro, Unidos do Tatuapé, Império do Ipiranga e todas as outras.
Mas, ficam fechados em copas em relação à querida Tia Sinhá, que está
aí mesmo, no Camisa Verde e Branco.
Mas afinal, a justa homenagem do samba paulista à sua primeira dama vai
acontecer. O Paulistano da Glória, que se lança esse ano novamente como
escola de samba, escolheu a Tia Sinhá da Barra Funda pra madrinha de sua
bandeira. Não podiam ter sido mais felizes a patota do Paulistano da Glória.
Justa homenagem a quem tanto fez pelo carnaval paulista. Fez por fazer,
fez por gosto, fez por amor, fez por acreditar na beleza da vida e na
grandeza de um povo que canta na rua.
Sinhá, a nossa querida Tia Sinhá da Barra Funda, recebe pra batizar amanhã
na Rua da Glória a bandeira do Paulistano. Todos os que gostam de samba,
todos os que transam nessa área devem chegar no pedaço pra oba-obar quem
tem tanto merecimento. Jangada, Flavio Cesar, Clóvis Messias, Guerra,
Covas Junior, cronistas maiores do samba, dêem passagem pra Tia Sinhá
em seus veículos de comunicação. Senhores compositores, Talismã, Toniquinho,
Silvio Modesto, Zeca da Casa Verde (que viu menino a Sinhá sambar), Odair
da Mocidade, Santana, Geraldão, Joãozinho da Vila Maria, Borboleta, Borboletinha,
João Dionísio, Zé Di do Vai-Vai, quero escutar um samba pra Sinhá. Um
samba só dela, na boca de todo nosso povão das quebradas do mundaréu.
Por favor, senhores baluartes do samba da paulicéia, Juarez da Cruz da
Mocidade, Pé Rachado do Vai-Vai, Dito e Ananias da Vila Maria, Mala do
Tatuapé, Doutor do Ipiranga, Sinval do Império do Cambuci, Zezinho do
Morro da Casa Verde, Dona Eunice do Lavapés, não faltam na homenagem a
Tia Sinhá. Vamos todos ao Paulistano da Glória. Do Carmo, compositor enrustido
e festeiro embandeirado. Maurício Ex Mimoso e boa praça. Zé Ramos Tinhorão,
pesquisador e historiador da música popular, Sergio Cabral, lutador incansável
pelas nossas coisas, é obrigação baixar no Paulistano da Glória. É de
lei pro samba ir homenagear nossa querida Tia Sinhá da Barra Funda.
Plínio Marcos
(19/10/1972)

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