|
Fiquei a vida inteira sem poder
sair do Brasil. De repente, descobriram "Dois Perdidos Numa Noite Suja".
É França, Portugal... Começaram a ler minha peça mexe e vira. Vira e mexe
vem alguém querendo ler ou montar "Dois Perdidos. Aliás, segundo dados
da década passada, é a terceira peça mais montada no Brasil: a primeira
é "As mãos de Eurídice", um monólogo do Pedro Bloch que sempre deu muito
dinheiro e foi o grande sucesso de Rodolfo Maier; a segunda, "Deus lhe
Pague", do Joracy Camargo, eterno sucesso com Procópio Ferreira e sua
companhia. As duas são bem antigas e já não têm sido montadas, salvo a
segunda, agora, pelas comemorações em torno do grande Procópio. Além de
ser mais recente (da década de 60), "Dois Perdidos" ficou proibida pela
censura por 20 anos. Considerando tudo isso, é bem provável que a posição
de "Dois Perdidos" no ranking seja ainda mais honrosa...
Não direi que minha peça é tão montada por ser ótima, longe de mil tal
pretensão. O fato é que tem dois personagens apenas e isso ajuda, não
fica tão caro produzir. Por essas e outras, todo mundo quer montar "Dois
Perdidos".
Agora mesmo está sendo organizado um evento pelo governo do Estado em
que "Dois Perdidos" está dando o que falar. Trata-se do "Mapa Cultural",
uma invenção muito boa do Marcos Mendonça, o Secretário de Cultura, e
seu braço direito, Antonio Carlos Sartini (que, como o Covas e eu, também
é santista); esse troço incrementa o teatro de todos os cantos do Estado
e o pessoal das cidades todas fica assanhado para participar.
Até ai, tudo bem. Só que todo mundo fica querendo montar "Dois Perdidos"
sem pagar direitos autorais; me ligam insistindo, achando que fico lisonjeado
de ser escolhido. Não deixo, não deixo mesmo. Tive que ligar pra Secretaria
de Cultura alertando que não aceitassem inscrições de grupos que não tivessem
autorização assinada por mim ou pelo Zé Renato, da SBAT (Sociedade Brasileira
de Autores Teatrais). Tive que dar um breque nessa folga teatral. Minhas
peças são meu ganha-pão.
Ademais, quando a censura me proibiu de trabalhar, proibiu a montagem
de qualquer uma das minhas 20 peças, eu fiquei no ora-veja e ninguém me
socorreu. Claro que considerei que são coisas da vida e não fiquei choramingando;
fui vender meus livros na rua. E agora as pessoas vêm choramingando nas
minhas orelhas, na base do somos amadores e tal e coisa, não vamos ter
lucro, é só arte e coisas e loisas. Eu argumento que não vou ficar andando
a pé pra eles se bandearem de carro pra lá e pra cá, montando "Dois Perdidos"
de graça. Pergunto se me emprestam o carro deles por um tempo, já que
eles me pedem a peça emprestada por um tempo...
Aí é aquele papo furado: "Ele não ama o teatro". Como se amar teatro fosse
usurpar texto alheio para uma montagem amadora. Conversa! Eu nunca neguei
minhas peças para profissionais. Teve tempo em que havia cinco ou seis
companhias fazendo o "Dois Perdidos" simultaneamente, cada uma num canto
do Brasil.
No mundo inteiro é assim, o povo de teatro sempre se interessa pelos "Dois
Perdidos". Agora mesmo, na França, houve uma disputa entre duas traduções,
a da Angela Leite Lopes e a do Jacques Tierryot, concorrendo a uma leitura
dramática no Festival de Avignon. Já houve duas leituras da tradução da
Angela em Paris no ano passado, na Feira do Livro e no Festival da Copa
do Teatro Gérard Philipe. Agora, este mês, em Avignon, será lida a tradução
do Tierryot. Fui convidado para ir assistir, como fui assistir às duas
leituras no ano passado. Mas então as passagens da Vera Artaxo, minha
companheira, foram garantidas. E desta vez não. Portanto, não vou, não
vamos. Sem ela, não vou mesmo, já disse isso bem alto pra todo mundo ouvir.
Não adianta me convidar. Quem convida um, tem que convidar o outro. A
gente não vai ouvir, mas eles vão ler "Dois Perdidos" lá, para os franceses
e para gente de teatro do mundo todo que vai estar lá.
Não tem importância. Este ano iremos a Portugal. O ator Roberto Bomtempo
vai estrear na direção de cinema numa co-produção de "Dois Perdidos".
O ator Alexandre Borges, filho do santista Tanah Corrêa, também quer o
"Dois Perdidos" para Portugal, não sei bem se pra cinema ou teatro. A
atriz Joselita Alvarez, ex-mulher do Raul Solnado, quer dirigir o "Dois
Perdidos" em teatro lá. O ator Francisco Pellé, de Teresina, vai fazer
uma montagem de "Dois Perdidos" primeiro em Portugal, depois na África
portuguesa. "Dois Perdidos" se espalha. Aí vamos, a Vera e eu, correr
mundo, caminhar, não importa pra onde, pois é preciso ir.
Plínio Marcos
(11/7/99)
 

Clique na figura acima
para voltar...
Webmaster: Bethynha
|