DIALÉTICA DE UM PALHAÇO BRASILEIRO

Dialética de um palhaço...

Não há outro meio:
- eu preciso verbalizar
(desesperadamente gritar!)
de modo bonito ou feio.
Não me importa o resultado,
o aplauso, a conseqüência;
tanto faz perdão ou penitência
- meu futuro é o passado.

Sou um puto, sem-vergonha,
porque vivo sentimentos.
Não nasci: foi a cegonha
(que não voa, só povoa
mal-formados pensamentos)
que me jogou neste mundo.
Cá estou, pobre e à toa,
um palhaço, ou vagabundo?

Viver assim é burrice,
que só traz desilusão.
O que vale é vigarice:
ser desonesto e ladrão!
Este é sempre bem-amado;
brilha no palco da vida,
e a platéia - comovida,
baixa as calças (qual viado)...

Já fiz parte dessa gente
pensando que era macho...
Aplaudir a quem não sente,
virei um pisado capacho.
Entreguei meu coração,
- minha única riqueza,
com toda a força (e fraqueza).
Em troca - ganhei traição!

Mas prefiro ser assim,
com princípios e metades,
construído de verdades,
pois, um dia chego ao fim.
E então, cada retalho,
trapo de amor, de emoção,
reformará meu coração.
Eu serei Eu: só o que valho.

Não sou muito - quase nada.
Mesmo assim tenho valor,
porque eu sinto o meu amor
- pela gente desgraçada...
Quem usa a masturbação
tendo ao lado um companheiro
não merece o verdadeiro
prazer - parido com paixão.

Quem se esconde, não se acha.
Vive...Não! Vegeta com medo,
camuflando o seu segredo:
não se solta - se atarraxa.
Tristes, torpes figuras,
são vítimas desfiguradas,
que não amam (e mal-amadas)
- padecem grandes torturas.

Somente quem tem pode dar.
Sentimentos não se fabricam
- pra se vender ou comprar;
concebidos, nascem e ficam
nos corações limpos, puros.
Não se acham nos mercados,
a preço de varejo, atacado...
Não se roubam - estão seguros.

Neste mundo só é feliz
quem não pára, quem procura,
sem temer a noite escura.
- Isto eu faço e sempre fiz.
Nunca me falta a coragem
nesta luta - indecifrável.
Quanto mistério, é inegável,
encerra a vida - a viagem?

O mais importante é sentir.
Viver a vida intensamente,
livre, solto, sem correntes,
- sem se enganar ou mentir.
Pois, se há trevas - há luz:
que dissipa os dissabores,
e que dá frutos e flores.
(Ou já esqueceram de Jesus?)

autor (nome fictício): Rolando Pedras

Colaboração: Carlos Pinto

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