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Vinte e sete de março é internacionalmente
comemorado como o Dia Mundial do Teatro. Retrocedendo no tempo, anterior
ao período cristão e que marca o nosso atual calendário, vamos encontrar
a Grécia Antiga, palco florescente de todas as artes, em especial a arte
cênica. Talvez por falta de um material mais consistente que remonte aos
tempos de Téspis, encenador e dramaturgo que se ocupava de uma carroça
para concretizar seus espetáculos em praças públicas, de uma cidade para
outra, os grandes historiadores do teatro se concentram na tragédia grega
como o ponto inicial dessa arte que até hoje sobrevive a todas as guerras
e dificuldades.
Para alguns desses historiadores, a tragédia teria nascido de um culto,
junto ao altar de algum deus, e que seria uma das maravilhas espirituais
do mundo marcando a união de drama e povo, afirmando e fortalecendo a
Grécia de então. Para eles, drama tem o significado de ação e, entre todas
as ações dramáticas, a tragédia seria a jóia de maior preço. Dificilmente
existirá um poeta, um filósofo, um estadista ou um sábio, que não se tenha
detido alguma vez, demoradamente, com seu pensamento, analisando a essência
da tragédia, porque com certeza sentiu na própria vida os perigos que
enfrentou quando, ao se empenhar em grandes tarefas, cruzou com a incerteza,
a contingência de uma idéia em que se empenhara.
Sentiram, que não chega aquilo que na terra nos é oferecido como compensação
de aflições íntimas. Sentiram muito mais: a divindade que não responde
ao suplicante, por que não se pode colocar em palavras aquilo que ela
poderia nos responder, já que as palavras não passam de uma invenção humana,
e nada mais são do que metáforas. A divindade nos deixa apenas pressentir
que existe, quer seja através das palavras elevadas dos fundadores das
várias religiões e dos profetas, da linguagem dos poetas e escultores,
da música e seus compositores ou do sucesso de um feito concretizado com
coragem e amplitude de responsabilidade, ou mesmo, de um fracasso resultante
da extravagância e da irresponsabilidade humana.
Tudo isto alimentou a tragédia antiga, a cujo campo pertencem os conflitos
entre a moral e a paixão, a lei e o direito natural, a medida e o orgulho,
entre o conhecimento e um impulso inconsiderado que nos tenta levar às
estrelas. Da hipertrofia do eu, que resultam as exigências que visam o
mundo e raras vezes serão satisfeitas. E, de contrários duros e inexoráveis,
nasce a tragédia, a flor escura e turva onde as gotas do orvalho são lágrimas
de um deus compassivo.
Na decorrência desta criação artística do homem, seguiram-se as várias
nuances da arte cênica, desenvolvidas através da comédia grega, do teatro
greco-romano, dos mistérios medievais, o drama do renascimento e a comédia
dell´arte, o drama pastoril e os dramas populares, o drama shakespeariano,
o mimo, a ópera barroca, o teatro popular do barroco, a dramaturgia francesa
de Racine, Corneille, Moliére, o drama alemão do iluminismo, a dramaturgia
revolucionária do romantismo e do realismo, a dramaturgia burguesa, o
drama social, o expressionismo e tantas outras vertentes desta arte que
retrata o cotidiano das nações e da raça humana.
Pelo tanto de história, e pelo valor que representa na formação e educação
cultural da sociedade, brindemos neste 27 de março a mais um Dia Internacional
do Teatro, aproveitando para orar aos nossos governantes no sentido de
que, dediquem parte do seu tempo a promover a produção cultural deste
país. Como dizia Garcia Lorca, "um povo que não ajuda ou não fomenta seu
teatro, se não está morto, está moribundo."
by: Carlos Pinto
Jornalista
Presidente do Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo
e Secretário de Cultura de Santos.
(24/03/02)
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