
A origem do teatro grego remonta ao antigo culto a Baco ou Dionisio, que era considerado o Deus do vinho já que na Grécia antiga esta adoração a Baco, estava ligada diretamente ao cultivo dos vinhedos. Dionísio era tido com um Deus de segunda categoria, muito embora sua história seja muito interessante. Filho de Zeus, pai dos Deuses e de Sêmele, princesa tebana, muito lhe custou se fazer aceitar e ser cultuado, em virtude das contestações de muitos, aos quais combateu e aplicou severas derrotas e castigos.
As urdiduras dessa campanha de Dionísio em favor de sua aceitação e culto, eram rememoradas e narradas nos ditirambos cantados em coros nas festas da vindima. Gerada e nascida dessas rudes comemorações religiosas, iria a arte teatral se firmar com o passar dos tempos, em uma das mais vigorosas formas de afirmação da genialidade criadora da Grécia antiga. Tal genialidade criadora encontrou em Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, no gênero trágico, e em Aristófanes, na comédia, sua mais significativa expressão e melhores momentos. Tais autores legaram sérios trabalhos à humanidade que, em função de sua beleza, poesia, força e profundidade humanística, transformaram-se em obras imortais. Se por um lado tais obras tem influenciado milhares de gerações posteriores ao período de suas criações, mesmo assim, com toda essa beleza, força e humanismo, jamais conseguiram sensibilizar a maioria da classe política brasileira, que prefere chafurdar no que há de mais miserável exposto na teoria de Maquiavel ou, simplesmente, seguir as lições de política ditadas por Lupílio, a seu filho Crasso.
Para estes coronéis da política nacional, encastelados em suas mordomias, mantendo distância dos reclamos e das necessidades sociais do povo brasileiro, Brasília é o novo Olimpo, e tal e qual os Deuses de então, se comportam. Suas falas lembram em muito a oratória ensinada por Lupílio : "Aprende a retórica e esmera-te na arte de nada dizer." Tornaram-se insensíveis diante do estado de crescente miséria, que hoje é uma latente ameaça à maioria dos segmentos sociais do país, ameaça essa que se constitui em forte combustível e armamento disponível, à espera de quem deles queira fazer uso, com o pressuposto de querer encurtar os caminhos da história, na busca de mais justiça social neste país. Decretaram a extinção do mercado de trabalho em função de uma política econômica equivocada, que levou o empresariado brasileiro ao estado pré falimentar. Sumiram com os recursos para um mínimo atendimento de saúde à população.
Praticamente proibiram ao povo seu acesso aos bens da educação e da cultura, ao tempo em que negligenciam qualquer medida que vise a melhoria do transporte coletivo. Por omissão ou incompetência, permitem esta escalada da violência urbana que nos torna a todos, cidadãos honrados e pagadores dos impostos ditados por esta nova edição da derrama colonial, eternos prisioneiros do medo. Mas tal insensibilidade se desfaz, quando necessário se torna "auxiliar" algum banqueiro em dificuldades.
Da mesma forma se desfaz, quando se trata de "atender" aos ditames do Fundo Monetário Internacional ou, das determinações advindas do Consenso de Washington.
Como se transformam estes coronéis da política nacional, diante de tais "dificuldades"? Logo arquitetam fórmulas capazes de as transformar em "facilidades", para agradar os novos senhores feudais do capitalismo selvagem. Quanto aos desvalidos, excluídos, famintos, desempregados e afins, não lhes resta mais nem o inalienável direito de morrer em paz e com dignidade, pois são tratados como cidadãos de segunda classe.
Tal e qual Dionisio, pode ser que o futuro nos reserve uma nova edição da tragédia grega, e os oprimidos tenham que obter pela força, o direito de serem aceitos e dignificados. Talvez aí, os Deuses de Brasília percam sua insensibilidade e arrogância. (Carlos Pinto)
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