MENSAGEM PARA DÉCIO DE ALMEIDA PRADO

Prezado amigo.
Conversava dia desses com Alcides Nogueira Pinto, com quem não falava há vários anos. Essas coisas que acontecem da gente se perder no tempo e na luta pela sobrevivência. Relembrávamos alguns aspectos da cultura paulista, principalmente do período que engloba os anos sessenta e setenta. Fatalmente falamos de você, e da sua importância em todo o contexto do teatro paulista e brasileiro, principalmente do grande apoio que você sempre emprestou ao teatro amador.
Voltamos a 1967, mais precisamente a outubro desse ano, tendo como palco a cidade de Presidente Prudente. Lá estava você junto conosco, participando da fase final do V Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo. Alcides começava sua brilhante carreira como autor teatral e a simples presença de você, de Renata Pallotini, Afonso Gentil e outras figuras que ajudaram a construir nossas artes cênicas, era um grande incentivo para todos nós que lá estávamos, procurando um lugar ao sol.
Não sei se você ainda lembra daquela tarde, em que juntamente com o Angelo Bonicelli, Hamilton Saraiva e outros companheiros, saímos a passear pela cidade e terminamos nos enfiando num buteco de quinta categoria para tomar umas cervejas. Fazia muito calor e você, quem diria, havia deixado de lado o seu terno e gravata, e desfilava com uma camisa de mangas curtas. E que cervejinha gelada nós tomamos enquanto discutíamos aspectos da cultura paulista, entre uma e outra piada de português. Lembra disso Décio? Para mim parece que foi ontem.
Lembra quando voltamos ao teatro e o Plínio Marcos estava na porta, resmungando, porque não achava os responsáveis por sua apresentação no encerramento do Festival? Por falar nele Décio, por acaso tem visto ele por aí ? Continua incomodando? Se o vir, diga que hoje comprei um exemplar de "A Navalha na Carne", daquela primeira edição de 1968, da Editora Senzala. Num suportei ver uma obra dele num sebo, misturada a outros materiais idiotas. Quando o encontrar dá-lhe um abraço por mim.
Quanta coisa você construiu através das suas críticas lúcidas, por vezes amorosas, sem uma palavra mais forte de agravo destrutivo. Quanto você nos ensinou com sua paciência e, acima de tudo, conhecimento. Afinal de contas você sempre foi uma dessas pessoas que amava o teatro acima de qualquer imperfeição cênica, como amava o seu São Paulo Futebol Clube.
Lembra da estréia nacional do texto do Jorge Andrade, "As Confrarias"? No Teatro da Rádio Clube de Santos em uma montagem do Teatro Estudantil Vicente de Carvalho? Que debate foi aquele gente.....Você, Sábato Magaldi, Anatol Rosenfeld, o próprio Jorge Andrade e outros componentes da crítica teatral brasileira. Pois é amigo Décio, nós continuamos aqui observando as cretinices cometidas contra o povo brasileiro. Até sem vontade de ir ao teatro em função do mesmo andar distanciado da sua função crítica e social. É claro que existem exceções à regra atual.
Dia desses assisti o Zé Celso Martinez Correa falando de você em uma entrevista para a Marilia Gabriela. Que coisas lindas ele disse de você e dos companheiros que formaram aquela Comissão Estadual de Teatro presidida pela Cacilda Becker. E que época conturbada era aquela companheiro, quando em várias oportunidades colocamos nossos cargos à disposição do Governador Sodré, só para participar de passeatas contra o regime de exceção que se instalara no país. E que Governador era aquele que jamais aceitou nossas renúncias e nunca nos impediu de participar ativamente contra aquela situação.
É isso aí amigo Décio. Vou ficando por aqui. Se encontrar o Anatol, transmita a ele os meus respeitos e a eterna saudade de todos nós. O mesmo para outros companheiros que já fizeram a mesma viagem, em especial para minha amiga Cacilda, nossa eterna primeira dama da cena brasileira.
Em tempo: você não sabe de que coisas terríveis escapou. Aqui na terra estão discutindo o aumento do salário mínimo. Não sabem se aumentam dez ou vinte reais para amenizar o sofrimento da maioria do nosso povo. No entanto Décio, os juízes e outros membros do Poder Judiciário, vão receber um abono como verba de moradia de três mil reais. Mentira minha? Você sabe que eu não sou disso companheiro, e tem mais: com a publicação do seu testamento intelectual pelo Estadão, tem companheiros entendendo que sua análise foi feita através da ótica marxista. Tá rindo é? O seu testamento é uma aula sobre a vida nacional nas últimas décadas e não importa sobre que ótica. Até na despedida você nos brindou com seu conhecimento e sabedoria.
Pois é, utilizando-me de linguagem cibernética, ..to indo nessa companheiro e inté mais. Ou melhor: fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

(by: Carlos Pinto)
18/03/2000
Webmaster: Bethynha

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